Árbitro de vídeo e filosofia da tecnologia

Publicado em 30 de setembro de 2019

Há poucos anos, grandes expectativas eram colocadas no árbitro assistente de vídeo (na sigla em inglês, o famigerado VAR). “Sem mais polêmicas em erros cruciais de arbitragem”, prometiam. Hoje, é raro passar uma semana sem ouvir alguma discussão em torno dele. Uma parte do debate talvez ocorra pelo desmoronamento da ilusão de infalibilidade que permeava essa tecnologia – ilusão que favorece a quem? Outra parte, porém, deriva de afirmações segundo as quais o árbitro de vídeo tem mudado o funcionamento do jogo de futebol. Exemplos: além de que a demora na revisão atrapalharia a fluidez da partida, alega-se, por vezes, que ele eliminaria o fator humano de grande parte das decisões de tal esporte – ou mesmo que acabaria promovendo a ideia de que o futebol é um jogo dependente exclusivamente das decisões dos juízes em detrimento daquelas feitas pelos técnicos e jogadores. Subjacente a falas como essa, está presente, eventualmente, uma crítica à tese da neutralidade da tecnologia. Ora, se o árbitro de vídeo promove certos fins e não outros, então uma tecnologia não é exclusivamente, digamos, sua função técnica: ela também incorpora certos valores (éticos, políticos, estéticos, etc.) que podem entrar em conflito com os valores do meio em que ela será inserida. Ao se reconhecer a não-neutralidade da tecnologia, torna-se evidente como ela pode ser alterada de modo a incorporar valores outros. De todo modo, a discussão sobre quais valores devem ser incorporados pouco tem de… técnica! Falibilidade, neutralidade e natureza da tecnologia são algumas das discussões da chamada Filosofia da Tecnologia, área cuja incidência, como vimos, está tão perto de nós como uma discussão sobre o VAR no fim da rodada.

Muito mais sério:
Collins, H. The Philosophy of Umpiring and the Introduction of Decision-Aid Technology. Journal of the Philosophy of Sport, vol. 37, n.2, p.135–146, 2010.
Cupani, A. Filosofia da Tecnologia: um convite. Florianópolis: Editora da UFSC, 2011.
Dusek, V. Filosofia da Tecnologia. Tradução de Luis Carlos Borges. São Paulo: Edições Loyola, 2009.
Johnson, C., & Taylor, J.. Rejecting Technology: A Normative Defense of Fallible Officiating. Sport, Ethics and Philosophy, vol. 10, n. 2, p. 148–160, 2016..
Rohden, L. [et al.]. Filosofia e futebol: troca de passes. Porto Alegre: Sulina, 2012.

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