Filosofia e setembro amarelo

Publicado em 16 de setembro de 2019

Ainda que estudado por diversas ciências, o tema do suicídio levanta, também, várias questões filosóficas. Defini-lo, analisar argumentos contrários ou favoráveis, e investigar a legitimidade de intervenções institucionais visando sua prevenção são alguma das tarefas às quais os filósofos se dedicam. Dada a campanha “setembro amarelo”, vale a pena discutir o que embasa ações do gênero ou mesmo intervenções estatais relacionadas a ele. Desde já, é importante notar que a filosofia é consequente: seu exercício exige aceitar as consequências das ideias propostas, mesmo que sejam resultados pelos quais temos aversão; ao ser assim, a filosofia tem o mérito de trazer à tona elementos que dificilmente seriam debatidos em outras áreas. No caso da temática do suicídio, os argumentos que tentam justificá-lo. Pois bem, um de tais argumentos advém de uma corrente segundo a qual quaisquer ações que limitam a autonomia do indivíduo são erradas. Para seus proponentes, temos uma relação de propriedade com o nosso corpo que permite não importa qual ação, desde que realizada racionalmente – a partir de informações adequadas, com bons raciocínios, etc. Além de enfrentar alguns obstáculos teóricos, a condição de racionalidade na escolha do suicídio é, praticamente, irrealizável. Segundo um importante estudo (referências nos comentários), em mais de 90% dos casos de suicídio as pessoas tinham alguma doença mental, as quais impossibilitam uma apreciação minimamente adequada de suas próprias possibilidades futuras de vida, suas capacidades e sua relação com os outros.
Uma decisão racional nesse contexto é, então, extremamente improvável – além de irreversível. Portanto, é muito mais prudente ter campanhas de prevenção ou mesmo algumas intervenções paternalistas a deixar os indivíduos tomarem, por si só, uma decisão que é, na maioria esmagadora dos casos, irrefletida.


Muito mais sério:
Bertolote, J. M., & Fleischmann, A. Suicide and psychiatric diagnosis: A worldwide perspective. World Psychiatry, vol. 1, 181-185, 2002.
Manual “Comportamento suicida: conhecer para prevenir” da Associação Brasileira de Psiquiatria : https://www.abp.org.br/manual-de-imprensa
PUENTE, Fernando Rey (Org.). Os Filósofos e o Suicídio. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
The Ethics of Suicide Digital Archive: https://ethicsofsuicide.lib.utah.edu
Verbete SEP: https://plato.stanford.edu/entries/suicide

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