“Dois papas” e filosofia da religião

Publicado em 13 de janeiro de 2020

Disponibilizado na plataforma Netflix desde dezembro de 2019 e dirigido por Fernando Meirelles, o filme “Dois Papas” permite várias leituras. Desde uma perspectiva filosófica, chama atenção um dos temas que perpassa todo o drama: o silêncio ou ocultamento de Deus (Deus aqui como um conceito subjacente às três grandes religiões abraâmicas), isto é, a ausência de certa experiência religiosa em pessoas que buscam uma relação com Deus. Por exemplo, a seguinte passagem de Anselmo de Cantuária (1033-1109): “O que fará teu servo, ansioso amor por ti, depravado de sua presença? Ele se esforça para o ver, e tu está demasiado longe”. O ocultamento de Deus é discutido na filosofia contemporânea da religião pelo menos de dois modos. Por um lado, é um fenômeno que urge uma explicação – especialmente para teístas. Como Deus pode ser puro amor e se esconder, minando a fé mesmo de pessoas notáveis dentro da própria tradição religiosa (um spoiler nada prejudicial: ambos os papas passam por isso no filme)? Por outro lado, esse mesmo fenômeno foi utilizado de modo a implicar inexistência de Deus. Formulado por J. L. Schellenberg em 1993, o intitulado “argumento da descrença” é mais ou menos assim: há pessoas que são capazes (cognitiva e afetivamente) de ter uma relação com Deus e, então, acreditarem em sua existência. Ok. Não obstante, sem nenhuma culpa por parte delas, elas falham em acreditar na existência dele. Ora (lá vem), se Deus fosse puro amor, qualquer pessoa capaz de ter uma relação com ele acreditaria que ele existe. Logo, um tal Deus não existe. Esse argumento do Schellenberg despertou reações diversas: há críticas ao conceito de Deus pressuposto e outras direcionadas ao tipo de relação que ele poderia estabelecer com suas criaturas. Há, igualmente, pesquisas da ciência cognitiva da religião procurando entender o fenômeno do ocultamento divino. Isso você não encontra no filme, mas nas referências abaixo nos comentários. Portanto, assista ao drama e venha ler tudo aqui depois. Até a próxima! 

Muito mais sério: 
Bibliografia a respeito no Philpapers: https://philpapers.org/browse/divine-hiddenness
Coleção de textos recentes: Green, Adam & Stump, Eleonore (eds.). Hidden Divinity and Religious Belief: New Perspectives. Cambridge: Cambridge University Press, 2016.
Verbete SEP: https://plato.stanford.edu/entries/divine-hiddenness/

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