Love Truth Again!

Publicado em 28 de outubro de 2019

Quando o historiador israelense Yuval Noah Harari (autor do best-seller “Sapiens”) disse que a filosofia poderia ser a profissão do futuro, filósofos começaram a ansiar pelo porvir como nunca antes. Para ele, a intensificação da inteligência artificial demandaria mais filósofos para auxiliar na programação de máquinas que lidem com dilemas morais. O autor, porém, faz um alerta: será possível, pela primeira vez na história, processar filósofos pelos resultados de suas teorias. É esse realmente o caso? Mais precisamente, ideias filosóficas têm sido até hoje inócuas? Vivendo em “circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais” (a célebre definição de pós-verdade dada pela Oxford Dictionaries), parece que, se há algum fator filosófico que colaborou com essa situação, então não, não é o caso que ideias filosóficas tenham sido inócuas. Em um livro sobre a temática da pós-verdade publicado em 2018, o filósofo da ciência Lee McIntyre (Boston University) analisa cinco fatores que contribuíram para a pós-verdade: negacionismo científico (veja nosso post “Mercadores da dúvida”), vieses cognitivos, derrocada da mídia tradicional, surgimento de mídias alternativas e… pós-modernismo. McIntyre define pós-modernismo a partir de duas teses: não há verdade objetiva e qualquer declaração de verdade é meramente reflexo da agenda política de seu enunciador. Embora alguns autores defendam que a corrente pós-moderna teve um impacto apenas dentro das universidades (não vemos o Ricardo Salles citando Derrida para negar mudanças climáticas, por exemplo), McIntyre mostra que isso é falso: o fundador do movimento contrário ao ensino da teoria evolutiva nas escolas estadunidenses cita explicitamente autores e teses pós-modernas para sustentar suas propostas; e Mike Cernovich, um dos grandes blogueiros apoiadores de Trump (517 mil seguidores no Twitter), fez o mesmo ao defender suas teorias conspiratórias durante as eleições de 2016 nos EUA. Para finalizar, uma citação do próprio McIntyre: “Esse é o custo de brincar com ideias como se elas não tivessem consequências. É bem divertido atacar a verdade na academia, mas o que acontece quando as táticas vazam para as mãos de negadores da ciência e de teóricos da conspiração, ou políticos que insistem serem seus instintos melhores do que qualquer evidência?”. Atenção ao vão entre o trem e a plataforma, filósofos. 

Muito mais sério:
Bruno Latour pedindo desculpas: http://www.bruno-latour.fr/…/89-CRITICAL-INQUIRY-GB.pdf 
McIntyre, Lee. Post-truth. Cambridge: MIT Press, 2018.
Matéria Harari: https://economia.uol.com.br/…/filosofia-pode-ser… 
Robert Pennock. The Postmodern Sin of Intelligent Design Creationism. Science & Education 19.6-8 (2010): 757-78

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