Vieses cognitivos

Publicado em 18 de novembro de 2019

Um ministro que nega o aquecimento global por ter passado frio em Roma. Aquele tio que, após receber uma notícia refutando o que acreditava, passa a acreditar ainda mais no que ela critica. Nós mesmos, na maioria do tempo, interpretando o que quer que seja como uma prova de nossas ideias prediletas. Feliz ou infelizmente, atitudes como essas podem, de certo modo, ser explicadas pela noção de vieses cognitivos – objeto de estudo da psicologia cognitiva de uns 60 anos pra cá. De modo grosseiro, eles podem ser definidos como desvios sistemáticos de padrões de racionalidade em nossos juízos ou tomadas de decisão. Interpretar o que quer que seja como prova de uma ideia predileta é um deles (viés de confirmação). Ao receber uma refutação, passar a acreditar ainda mais no que foi refutado, outro (efeito tiro pela culatra). A tendência de indivíduos com pouco conhecimento acharem que, na verdade, eles sabem muito mais – o que leva um ministro a pronunciar, sem receio nenhum, uma confusão básica sobre a distinção entre clima e tempo -, mais outro (efeito Dunning-Kruger). Nem todos os resultados sobre essa temática, contudo, nos deixam ainda mais desesperançosos com a possibilidade de melhorarmos nossas práticas cognitivas. Em um artigo de 2010 no contexto de uma pesquisa sobre comportamento de eleitores, foi descoberto um ponto de inflexão a partir do qual a presença massiva de informações contrárias a expectativas prévias passa, finalmente, a ter um papel de desconfirmação: eleitores não são imunes a informações que desconfirmem suas opiniões, conclui o estudo. E saber disso tudo, seres com polegares, tem qual efeito?

Artigo de 2010 (The Affective Tipping Point: Do Motivated Reasoners Ever “Get It”?): https://doi.org/10.1111/j.1467-9221.2010.00772.x
Capítulo 3 de MCINTYRE, Lee. Post-truth. Cambridge: MIT Press, 2018.
Davi Carvalho – POR QUE AS PESSOAS ACREDITAM EM FAKE NEWS, SEGUNDO A PSICOLOGIA SOCIAL. https://www.blogs.unicamp.br/…/fake-news-por-que-as…/…
KAHNEMAN, David. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
Série de vídeos sobre vieses cognitivos (Wireless Philosophy): https://youtu.be/TCBALVumrUQ

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