Um limite para a liberdade de investigação científica

Publicado em 14 de junho de 2021

Considerações sobre bem-estar podem se sobrepor à liberdade de pesquisa científica? Tirinha sobre um dos principais argumentos a favor de uma resposta positiva a essa questão. Segue o texto das imagens depois das hashtags.

Suponha uma sociedade onde determinados membros tenham uma qualidade de vida significativamente pior que a de outros e isso devido, em parte, pela crença ainda existente de que eles são naturalmente inferiores aos demais por possuírem determinadas características. No passado, essa crença era muito mais disseminada.

Suponha, além disso, que haja uma área científica A cujas pesquisas podem fornecer evidência a favor ou contra a hipótese de que “pessoas com a característica C são naturalmente menos adequadas para o papel P”.Cientistas devem realizar pesquisas nessa área A?

No livro “Ciência, Verdade e Democracia”, o filósofo Philip Kitcher responde negativamente a essa questão. Seu argumento parte da seguinte afirmação: “se não devemos nos envolver em empreendimentos que possam diminuir o bem-estar daqueles que já estão em situação pior do que outros membros da sociedade, devemos, portanto, evitar nos envolver em A”.

Kitcher defende que se algumas condições são satisfeitas, pesquisas da área A podem diminuir o bem-estar de pessoas que já estão em situação pior do que outras e, então, cientistas devem se abster de fazer tais pesquisas. Seguem as condições:

– assimetria política: se a evidência for contrária à hipótese, não haverá erradicação dela, MAS, se a evidência for favorável, ela voltará a ser amplamente disseminada causando uma diminuição da qualidade de vida de quem tem a característica C.

– assimetria epistêmica: a probabilidade atribuída à hipótese pelos membros da sociedade é maior do que aquela probabilidade fornecida por métodos confiáveis de pesquisa;

– a evidência obtida a partir da área A é indecisiva, ou seja, permite atribuir apenas 0,5 de probabilidade à hipótese em questão. MAS, o viés da sociedade em favor da hipótese é tão grande que seus membros elevam essa probabilidade a um valor próximo de 1.

Dadas essas condições, cientistas devem se abster de pesquisar A. Apesar de ser um argumento abstrato, Kitcher alega que há casos concretos que satisfazem essas condições, como algumas pesquisas em sociobiologia. Seja como for, essa discussão toda ilustra como considerações de bem-estar podem se sobrepor à liberdade de pesquisa científica.

Muito mais sério: Philip Kitcher – Science, Truth and Democracy (OUP, 2001)

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