Grupo Telegram Filosofia ENEM

Publicado em 19 de maio de 2020

Pessoal, criei um grupo público no Telegram para que estudantes e professores de filosofia tirem dúvidas sobre a área, pensando principalmente no ENEM. Muitas pessoas têm planos de dados que apenas permitem o acesso a aplicativos de mensagem ou que acabariam rapidamente assistindo a vídeos. O objetivo é, então, ajudar esses estudantes com mensagens de textos, áudios breves, diagramas, esquemas mentais ou, pelo menos, direcionando-os a sites confiáveis de primeira. Ressalto: não se trata de um grupo de debate entre filósofos! Sua única função é auxiliar os estudantes ali presentes (venham, estudantes!). 
Conto com vocês para tentarmos reduzir o impacto do contexto em que estamos na formação deles. Segue o link do grupo: https://t.me/filosofiaenem

Mercadores da dúvida

Publicado em 17 de maio de 2020

Quais são as ações mais recorrentes de negacionistas científicos? Tirinha sobre uma das principais referências sobre essa questão: o livro “Merchants of Doubt” [Mercadores da dúvida], escrito pelos historiadores da ciência Naomi Oreskes e Erik Conway, e fruto de anos de pesquisa em documentos tornados públicos no fim da década de 90. Fique em casa e, por favor, se não lhe é indiferente o conteúdo deste post, siga divulgadores científicos: 

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Muito mais sério: 🤨
🔸Karen Kovaka – Climate change denial and beliefs about science (Synthese, 2019) 
🔸José Leite – Cotrovérsias científicas ou negação da ciência? (Scientiae Studia, 2014) 
🔸Naomi Oreskes – Why trust science? (Princeton, 2019) 
🔸Naomi de novo e Erik Conway – Merchants of doubt (Bloomsbury, 2010)
🔸Sven Hansson – Science denial as a form of pseudoscience (Studies in History and Philosophy of Science, 2017)  
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Referências das manchetes: 📰https://bityli.com/DzKx9https://bityli.com/csazF e https://bityli.com/W48OK
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Site do livro: 📕https://www.merchantsofdoubt.org/home/key-documents

Falsos dilemas

Publicado em 04 de maio de 2020

Depois do dilúvio de falsos dilemas nos últimos meses, nada como explicar, rapidamente, em que consiste essa falácia e como evitá-la. Afinal de contas, o que está em jogo não é o maravilhoso poema da Cecília Meireles: “Ou se tem chuva e não se tem sol/ ou se tem sol e não se tem chuva! / Ou se calça a luva e não se põe o anel, / ou se põe o anel e não se calça a luva! / Quem sobe nos ares não fica no chão, / Quem fica no chão não sobe nos ares. / É uma grande pena que não se possa / estar ao mesmo tempo em dois lugares! / Ou guardo dinheiro e não compro o doce, / ou compro o doce e não guardo o dinheiro. / Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… / e vivo escolhendo o dia inteiro! / Não sei se brinco, não sei se estudo, / se saio correndo ou fico tranquilo. / Mas não consegui entender ainda / qual é melhor: se é isto ou aquilo.”

Paradoxo da loteria

Publicado em 27 de abril de 2020

Depois do paradoxo da ficção, nada como outro paradoxo para nos entreter por algum intervalo de tempo e mudar o tom do que vemos por esses dias. Segue, então, uma sequência bem introdutória ao paradoxo da loteria. Ele é um pouco mais técnico que o outro, mas a diversão é garantida 😉
ps: agradeço ao Matheus Rui (UFSC) pela assessoria no post – um dos temas do doutorado dele é o paradoxo da loteria; vejam sua entrevista aqui na página.

Ciência e valores

Publicado em 06 de abril de 2020

A pandemia pela qual estamos passando tem suscitado questões diversas. Gostaria de mencionar, hoje, apenas aquelas que são investigadas por um ramo da filosofia da ciência chamado “ciência e valores”. Talvez vocês tenham visto governos que, se antes flertavam com conspirações anti-vacina, agora exigirem, de qualquer maneira e o mais rápido possível (além de com aqueeeela incoerência), uma vacina para o novo vírus. Ações como essa tem recebido forte reação da comunidade científica dos países envolvidos, uma vez que elas atropelariam todo o custoso processo de elaborar algo do gênero e suas medidas de segurança. Apenas tendo em mente esse cenário, várias questões espinhosas aparecem: em que condições intervenções governamentais no modo de agir da comunidade científica são legítimas? quais linhas de pesquisa e áreas científicas devem ser priorizadas em uma determinada sociedade, se for o caso de que algumas devam? quais as responsabilidades dos cientistas na elaboração, realização e comunicação de experimentos? como subsidiar políticas públicas em situações urgentes quando ainda não há evidência minimamente conclusiva sobre elementos importantes? o objetivo das ciências deve ser apenas o entendimento de fenômenos ou também o bem-estar da sociedade? Se for ambos objetivos, como organizá-los de modo a evitar que proposições sejam o caso simplesmente por que se quer que sejam? Caso você tenha se interessado por essas questões, listei abaixo algumas referências (autoria e título) sobre elas. A maioria está em português e é de fácil localização na internet. Aproveitem

Muito mais sério:

Brena Paula Magno Fernandes – Entrevista com Hugh Lacey
Débora Aymoré – Objetividade forte como alternativa à ciência livre de valores
Débora Aymoré, Kelly Koide e Mariana Toledo Ferreira – Ativismo, feminismo e filosofia da ciência: Entrevista com Helen Longino 
José Correa Leite – Controvérsias científicas ou negação da ciência? A agnotologia e a ciência do clima.
Kelly Koide, Mariana Toledo Ferreira, Marison Marini – Arqueologia e a crítica feminista: Entrevista com Alison Wylie.
Kevin Elliot – A Tapestry of Values: An Introduction to Values in Science
Marcos Barbosa de Oliveira – Formas de autonomia da ciência
Pablo Mariconda e Hugh Lacey – A águia e os estorninhos: Galileu e a autonomia da ciência
Philip Kitcher – Science in a Democratic Society
Revista Questão de Ciência – Em tempos de crise, vigilância contra má ciência deve ser redobrada
Stephen John – Inductive risk and the contexts of communication

Fronteiras imprecisas

Publicado em 02 de março de 2020

Bons diálogos são, às vezes, encerrados com a seguinte alegação: não há diferença entre A e B porque não se pode traçar uma fronteira precisa entre eles. Por exemplo: a partir de alguns casos de que não se sabe muito bem se são politicamente de esquerda ou de direita, infere-se não haver diferença entre esquerda e direita. Outro: concluir que não há diferença entre pseudociência e ciência, dado que há certa dificuldade sobre qual lado colocar determinadas práticas bem específicas. Como sugere, porém, o quadro acima do M. C. Escher (1898-1972), do fato de haver uma região em que não se sabe direito se ali há peixes ou pássaros não se segue que não haja como identificar as regiões com apenas peixes e apenas pássaros. Se você não gosta do Escher (o que me deixa muito triste, mas vida que segue), veja essa citação – retirada do livro “Pensamento Crítico” de W. Carnielli e R. Epstein – apelando a uma outra imagem: “Numa sala muito grande, iluminada por uma única vela num canto, não há lugar algum que possamos dizer que marca a fronteira entre a luz e a escuridão. Mas isso não significa que não haja diferença entre a luz e a escuridão. O fato de não podermos traçar uma fronteira não significa que não haja uma diferença óbvia entre os dois extremos”. Cometer esse tipo de erro do qual estamos falando aqui é muito comum e até recebeu um rótulo sugestivo: falácia da fronteira imprecisa. Consegue pensar em outras situações em que ela ocorre?

Muito mais sério:
Noberto Bobbio – Direita e esquerda: Razões e significados de uma distinção política (unesp, 2011)
Sven Ove Hansson – Ciência e pseudociência (Crítica na rede, 2018 – https://criticanarede.com/fciencia.html
Walter Carnielli e Richard Epstein – Pensamento Crítico: o poder da lógica e da argumentação (Rideel, 2011)

Como avaliar o testemunho de especialistas?

Publicado em 17 de fevereiro de 2020

De modo geral, políticas públicas destinadas a mitigar problemas atuais dependem de vastas e complexas pesquisas científicas – basta pensar, por exemplo, no aquecimento global antrópico. Raramente, algum ator político possui também os requisitos necessários para avaliar o que os cientistas estão dizendo. Nessas condições, como poderia, então, um leigo avaliar o testemunho de cientistas? Essa é uma das questões debatidas na epistemologia social contemporânea. Elizabeth Anderson, uma das filósofas que buscou respondê-la, disse grosseiramente o seguinte: não há como leigos avaliarem o conteúdo propriamente dito das pesquisas; em geral, eles julgam o que acreditar julgando em quem acreditar; é preciso, portanto, critérios para avaliar quando o testemunho de especialistas é confiável e quando há um consenso entre eles; esses critérios, por fim, precisam ser de fácil aplicação a um leigo. Vamos nos focar nos critérios para avaliar o testemunho de especialistas. Elizabeth propôs três deles: um para avaliar a expertise científica, outro para avaliar a honestidade científica e um último para avaliação da responsabilidade epistêmica. A expertise científica de um especialista seria examinada por sua formação. A ideia básica aqui é que alguém com doutorado no assunto em questão e com publicação em revistas científicas importantes é muito mais confiável que alguém com doutorado em outra área e publicações em revistas sem processo de revisão por pares. Por sua vez, a honestidade científica é medida pela presença de conflitos de interesse na pesquisa (veja o post sobre o “efeito financiamento” aqui na página), experiência prévia de plágio ou fraude, supressão de evidências etc. Finalmente, a responsabilidade epistêmica seria avaliada pelas atitudes de evadir o compartilhamento de dados e fontes sem razão nenhuma, publicar resultados na mídia antes de defendê-lo perante outros especialistas e continuar repetindo afirmações já refutadas. Embora reconheça haver vários fatores que dificultam a aplicação desses critérios, Elizabeth mostrou como eles podem ser facilmente aplicados através de rápidas buscas na internet no caso específico do aquecimento global antrópico. Fica, então, a sugestão de aplicá-los a alguns negacionistas brasileiros 😉

Muito mais sério: 
Elizabeth Anderson – Democracy, Public Policy, and Lay Assessments of Scientific Testimony. Episteme, vol. 8, n. 2, p 144 -164, 2011.
John Hardwig – Dependência epistêmica. Tradução de Desidério Murcho. Crítica. 02 dez 2018. https://criticanarede.com/filos_epis.html
Helen Longino – The Social Dimensions of Scientific Knowledge. SEP. https://plato.stanford.edu/archives/sum2019/entries/scientific-knowledge-social/

“Dois papas” e filosofia da religião

Publicado em 13 de janeiro de 2020

Disponibilizado na plataforma Netflix desde dezembro de 2019 e dirigido por Fernando Meirelles, o filme “Dois Papas” permite várias leituras. Desde uma perspectiva filosófica, chama atenção um dos temas que perpassa todo o drama: o silêncio ou ocultamento de Deus (Deus aqui como um conceito subjacente às três grandes religiões abraâmicas), isto é, a ausência de certa experiência religiosa em pessoas que buscam uma relação com Deus. Por exemplo, a seguinte passagem de Anselmo de Cantuária (1033-1109): “O que fará teu servo, ansioso amor por ti, depravado de sua presença? Ele se esforça para o ver, e tu está demasiado longe”. O ocultamento de Deus é discutido na filosofia contemporânea da religião pelo menos de dois modos. Por um lado, é um fenômeno que urge uma explicação – especialmente para teístas. Como Deus pode ser puro amor e se esconder, minando a fé mesmo de pessoas notáveis dentro da própria tradição religiosa (um spoiler nada prejudicial: ambos os papas passam por isso no filme)? Por outro lado, esse mesmo fenômeno foi utilizado de modo a implicar inexistência de Deus. Formulado por J. L. Schellenberg em 1993, o intitulado “argumento da descrença” é mais ou menos assim: há pessoas que são capazes (cognitiva e afetivamente) de ter uma relação com Deus e, então, acreditarem em sua existência. Ok. Não obstante, sem nenhuma culpa por parte delas, elas falham em acreditar na existência dele. Ora (lá vem), se Deus fosse puro amor, qualquer pessoa capaz de ter uma relação com ele acreditaria que ele existe. Logo, um tal Deus não existe. Esse argumento do Schellenberg despertou reações diversas: há críticas ao conceito de Deus pressuposto e outras direcionadas ao tipo de relação que ele poderia estabelecer com suas criaturas. Há, igualmente, pesquisas da ciência cognitiva da religião procurando entender o fenômeno do ocultamento divino. Isso você não encontra no filme, mas nas referências abaixo nos comentários. Portanto, assista ao drama e venha ler tudo aqui depois. Até a próxima! 

Muito mais sério: 
Bibliografia a respeito no Philpapers: https://philpapers.org/browse/divine-hiddenness
Coleção de textos recentes: Green, Adam & Stump, Eleonore (eds.). Hidden Divinity and Religious Belief: New Perspectives. Cambridge: Cambridge University Press, 2016.
Verbete SEP: https://plato.stanford.edu/entries/divine-hiddenness/

Ordem e progresso

Publicado em 25 de novembro de 2019

Há exatos dez dias, 15 de novembro de 2019, houve o feriado em comemoração à Proclamação da República, acontecimento histórico que suscita questões diversas. Vamos focar em uma delas. Talvez você já tenha ouvido falar da influência do positivismo nos atores responsáveis pela formação da República. Um sinal claro disso é a presença do lema “Ordem e Progresso” na nova bandeira, alusão a uma fórmula do filósofo francês Augusto Comte (1798-1857) recorrente em vários de seus textos: “O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim”. A menção explícita ao Comte evidencia uma grande influência de sua obra no Brasil no século XIX. Essa influência, porém, não foi apenas passiva, como uma simples menção a uma de suas ideias na bandeira poderia sugerir. O positivismo de Comte foi, na verdade, objeto de discussão de vários filósofos brasileiros desse período: Luís Pereira Barreto (1840-1923), Nísia Floresta (1810-1885), Sílvio Romero (1851-1914), entre outros. Essa história é menos conhecida e, para nela adentrar de maneira adequada, nada melhor que folhear as referências abaixo integralmente disponíveis na internet. Uma ótima leitura!

Muito mais sério:

CANHADA, Julio Miranda. Construções de um século: discursos filosóficos no Brasil oitocentista. 2017. Tese (Doutorado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/…/tde-12052017-155905/pt-br.php>. Acesso em 17 nov 2019.
COMTE, Augusto. Curso de filosofia positiva; Discurso sobre o espírito positivo; Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo; Catecismo positivista. Seleção de textos e traduções de José Arthur Giannotti. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores). Disponível em: <http://www.ldaceliaoliveira.seed.pr.gov.br/…/Colecao_Os…> Acesso em 17 nov 2019.
PINTO, Paulo Margutti. Nísia Floresta, uma brasileira desconhecida: Feminismo, positivismo e outras tendências. Porto Alegre: Editora Fi, 2019. Disponível em: <https://www.editorafi.org/536nisia>. Acesso em 17 nov 2019.

Vieses cognitivos

Publicado em 18 de novembro de 2019

Um ministro que nega o aquecimento global por ter passado frio em Roma. Aquele tio que, após receber uma notícia refutando o que acreditava, passa a acreditar ainda mais no que ela critica. Nós mesmos, na maioria do tempo, interpretando o que quer que seja como uma prova de nossas ideias prediletas. Feliz ou infelizmente, atitudes como essas podem, de certo modo, ser explicadas pela noção de vieses cognitivos – objeto de estudo da psicologia cognitiva de uns 60 anos pra cá. De modo grosseiro, eles podem ser definidos como desvios sistemáticos de padrões de racionalidade em nossos juízos ou tomadas de decisão. Interpretar o que quer que seja como prova de uma ideia predileta é um deles (viés de confirmação). Ao receber uma refutação, passar a acreditar ainda mais no que foi refutado, outro (efeito tiro pela culatra). A tendência de indivíduos com pouco conhecimento acharem que, na verdade, eles sabem muito mais – o que leva um ministro a pronunciar, sem receio nenhum, uma confusão básica sobre a distinção entre clima e tempo -, mais outro (efeito Dunning-Kruger). Nem todos os resultados sobre essa temática, contudo, nos deixam ainda mais desesperançosos com a possibilidade de melhorarmos nossas práticas cognitivas. Em um artigo de 2010 no contexto de uma pesquisa sobre comportamento de eleitores, foi descoberto um ponto de inflexão a partir do qual a presença massiva de informações contrárias a expectativas prévias passa, finalmente, a ter um papel de desconfirmação: eleitores não são imunes a informações que desconfirmem suas opiniões, conclui o estudo. E saber disso tudo, seres com polegares, tem qual efeito?

Artigo de 2010 (The Affective Tipping Point: Do Motivated Reasoners Ever “Get It”?): https://doi.org/10.1111/j.1467-9221.2010.00772.x
Capítulo 3 de MCINTYRE, Lee. Post-truth. Cambridge: MIT Press, 2018.
Davi Carvalho – POR QUE AS PESSOAS ACREDITAM EM FAKE NEWS, SEGUNDO A PSICOLOGIA SOCIAL. https://www.blogs.unicamp.br/…/fake-news-por-que-as…/…
KAHNEMAN, David. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
Série de vídeos sobre vieses cognitivos (Wireless Philosophy): https://youtu.be/TCBALVumrUQ