Em que filósofos acreditam? Philpapers Survey de 2020

Publicado em 05 de novembro de 2021

Poucos dias atrás foram lançados os resultados da Philpapers Survey de 2020: uma pesquisa online, feita entre os meses de outubro e novembro do ano passado, em que mais de 1700 filósofos universitários responderam perguntas variadas sobre a área. Embora com algumas limitações, ela traz alguns elementos interessantes. Tirinha sobre tudo isso. Texto das imagens nos comentários.

Um limite para a liberdade de investigação científica

Publicado em 14 de junho de 2021

Considerações sobre bem-estar podem se sobrepor à liberdade de pesquisa científica? Tirinha sobre um dos principais argumentos a favor de uma resposta positiva a essa questão. Segue o texto das imagens depois das hashtags.

Suponha uma sociedade onde determinados membros tenham uma qualidade de vida significativamente pior que a de outros e isso devido, em parte, pela crença ainda existente de que eles são naturalmente inferiores aos demais por possuírem determinadas características. No passado, essa crença era muito mais disseminada.

Suponha, além disso, que haja uma área científica A cujas pesquisas podem fornecer evidência a favor ou contra a hipótese de que “pessoas com a característica C são naturalmente menos adequadas para o papel P”.Cientistas devem realizar pesquisas nessa área A?

No livro “Ciência, Verdade e Democracia”, o filósofo Philip Kitcher responde negativamente a essa questão. Seu argumento parte da seguinte afirmação: “se não devemos nos envolver em empreendimentos que possam diminuir o bem-estar daqueles que já estão em situação pior do que outros membros da sociedade, devemos, portanto, evitar nos envolver em A”.

Kitcher defende que se algumas condições são satisfeitas, pesquisas da área A podem diminuir o bem-estar de pessoas que já estão em situação pior do que outras e, então, cientistas devem se abster de fazer tais pesquisas. Seguem as condições:

– assimetria política: se a evidência for contrária à hipótese, não haverá erradicação dela, MAS, se a evidência for favorável, ela voltará a ser amplamente disseminada causando uma diminuição da qualidade de vida de quem tem a característica C.

– assimetria epistêmica: a probabilidade atribuída à hipótese pelos membros da sociedade é maior do que aquela probabilidade fornecida por métodos confiáveis de pesquisa;

– a evidência obtida a partir da área A é indecisiva, ou seja, permite atribuir apenas 0,5 de probabilidade à hipótese em questão. MAS, o viés da sociedade em favor da hipótese é tão grande que seus membros elevam essa probabilidade a um valor próximo de 1.

Dadas essas condições, cientistas devem se abster de pesquisar A. Apesar de ser um argumento abstrato, Kitcher alega que há casos concretos que satisfazem essas condições, como algumas pesquisas em sociobiologia. Seja como for, essa discussão toda ilustra como considerações de bem-estar podem se sobrepor à liberdade de pesquisa científica.

Muito mais sério: Philip Kitcher – Science, Truth and Democracy (OUP, 2001)

Mais um filósofo no governo Biden-Harris: Kyle Whyte no Conselho de Justiça Ambiental

Publicado em 10 de maio de 2021

Em um post anterior, destaquei a nomeação de um filósofo para um cargo no Departamento de Energia dos EUA – o Andrew Light (aquele do pragmatismo ambiental metodológico, lembra?). Hoje eu gostaria destacar uma outra nomeação de mais um filósofo: a de Kyle Whyte para o Conselho de Justiça Ambiental da Casa Branca. Kyle tem publicado principalmente nas áreas de ética e política ambiental. Seus textos tratam, por exemplo, de como fomentar cooperação entre povos indígenas e não-indígenas, de como melhorar a educação ambiental, ou ainda dos méritos da ética do cuidado para lidar com questões relacionadas ao meio ambiente. O principal tema que perpassa sua trajetória é, porém, aquele mencionado no nome do conselho do qual fará parte: justiça ambiental. Nas primeiras vezes em que o conceito foi usado, justiça ambiental se referia à distribuição desigual de riscos ambientais. Pense, por exemplo, em qual parcela da população ainda não tem saneamento básico ou qual foi mais diretamente impactada pelos últimos desastres ambientais criminosos no Brasil e, então, você já terá entendido o conceito. Depois desse uso inicial e, em grande parte, pelo movimento social que carrega essa bandeira, o conceito de justiça ambiental foi ampliado para dar conta de outros elementos, tais como a necessidade de participação das pessoas envolvidas em processos decisórios ou a urgência de acomodar fatores não-humanos em um conceito de justiça. Conforme afirma, por fim, um outro pesquisador sobre justiça ambiental: “Quando interrompemos, corrompemos ou contaminamos o funcionamento potencial dos sistemas de apoio ecológico, cometemos uma injustiça não apenas aos seres humanos, mas também a todos os não-humanos que dependem da integridade do sistema para seu próprio funcionamento. É a perturbação e o aumento da vulnerabilidade da integridade dos ecossistemas que está no cerne da injustiça das mudanças climáticas, por exemplo, tanto em termos do seu impacto nas comunidades humanas vulneráveis como na natureza não-humana”.

Muito mais sério:
David Schlosberg – Theorising environmental justice: the expanding sphere of a discourse (Environmental Politics, 2013)
Kyle White – On the role of traditional ecological knowledge as a collaborative concept: a philosophical study (Ecological Processes 2013)
Rede Brasileira de Justiça Ambiental (https://rbja.org/)

Agnotologia

Publicado em 22 de março de 2021

Agnotologia se refere à construção social da ignorância e à área, composta principalmente por historiadores e filósofos da ciência, que a investiga. Há, pelo menos, três tipos de ignorância a serem estudados: ignorância como um estado primitivo a ser preenchido por conhecimento, ignorância como construção passiva e ignorância como construção ativa. Os dois últimos tipos se referem, respectivamente, ao que é deixado de lado durante investigações científicas por razões diversas (por exemplo, falta de incentivo econômico para pesquisar determinados objetos) e a estratégias deliberadas de criação de ignorância. Tais estratégias podem ser virtuosas nos casos em que não saber de algo é, reconhecidamente, justificado por determinados valores, evitando, assim, pesquisas a partir de métodos inapropriados, pesquisas que reforçam estereótipos de grupos marginalizados ou pesquisas com resultados perigosos. Nesses casos, reconhece-se que obter conhecimento não está nem deve estar acima de tudo. Mais comumente, porém, estratégias deliberadas de construção ativa de ignorância têm o objetivo de enganar e confundir o público em geral, como vemos nos diversos casos de negacionismo científico.Muito mais sério:

1️⃣Janet Kourany e Martin Carrier – Science and the Production of Ignorance (MIT Press, 2020)

2️⃣Robert N. Proctor e Londa Schiebinger – Agnotology: The Making and Unmaking of Ignorance (Stanford University Press, 2008)

3️⃣Sven Hansson – Science denial as a form of pseudoscience (Studies in History and Philosophy of Science, 2017)

Cientistas se interessam por filosofia da ciência?

Publicado em 01 de março de 2021

“A filosofia da ciência é tão útil para os cientistas quanto a ornitologia é para os pássaros”, teria dito um físico. É esse realmente o caso? Até duas semanas atrás, filósofos se defendiam dessa fala de duas maneiras. Agora, temos uma outra ainda melhor. Confira na tirinha 😉

O que conta como uma contribuição à literatura filosófica?

Publicado em 15 de fevereiro de 2021

O que conta como uma contribuição à literatura filosófica? Dez dias atrás, um post no site Daily Nous (link mais abaixo) listou várias formas de como alguém pode fornecer um acréscimo, reconhecido pelos pares e pelos leitores, a esse domínio. Particularmente, eu achei o material muito interessante, porque ajuda a desmitificar a própria atividade filosófica: nem sempre estamos desenvolvendo um sistema que explique toda a realidade! hehe Por esse motivo, cito abaixo dez dos mais de trinta tipos de contribuições elencados no site (não deixe de acessá-lo para conhecer os outros):

– tornar explícita uma pressuposição oculta de determinado debate;

-propor um problema novo;

– fornecer contraexemplos a uma definição aceita;

– encontrar um novo argumento em defesa ou contra uma posição já existente;

– fazer distinções úteis;

– explicar o valor de uma contribuição negligenciada;

– desenvolver formalizações ou modelos;

– apresentar o pano de fundo histórico de alguma ideia filosófica; –

tomar uma ideia de um contexto e aplicá-la em outro contexto diferente;

– clarificar e melhorar o entendimento de uma ideia ou teoria já existente;

Link do post no Daily Nous: https://dailynous.com/…/types-contributions…/

Um filósofo especializado em ética ambiental no governo Biden-Harris?

Publicado em 27 de janeiro de 2021

Um filósofo especializado em ética ambiental no governo Biden-Harris? Sim! Ainda há esperanças de emprego na filosofia! hehe Tirinha sobre Andrew Light, ética ambiental e sua proposta conhecida como “pragmatismo ambiental metodológico”. Referências no final.