Como avaliar o testemunho de especialistas?

Publicado em 17 de fevereiro de 2020

De modo geral, políticas públicas destinadas a mitigar problemas atuais dependem de vastas e complexas pesquisas científicas – basta pensar, por exemplo, no aquecimento global antrópico. Raramente, algum ator político possui também os requisitos necessários para avaliar o que os cientistas estão dizendo. Nessas condições, como poderia, então, um leigo avaliar o testemunho de cientistas? Essa é uma das questões debatidas na epistemologia social contemporânea. Elizabeth Anderson, uma das filósofas que buscou respondê-la, disse grosseiramente o seguinte: não há como leigos avaliarem o conteúdo propriamente dito das pesquisas; em geral, eles julgam o que acreditar julgando em quem acreditar; é preciso, portanto, critérios para avaliar quando o testemunho de especialistas é confiável e quando há um consenso entre eles; esses critérios, por fim, precisam ser de fácil aplicação a um leigo. Vamos nos focar nos critérios para avaliar o testemunho de especialistas. Elizabeth propôs três deles: um para avaliar a expertise científica, outro para avaliar a honestidade científica e um último para avaliação da responsabilidade epistêmica. A expertise científica de um especialista seria examinada por sua formação. A ideia básica aqui é que alguém com doutorado no assunto em questão e com publicação em revistas científicas importantes é muito mais confiável que alguém com doutorado em outra área e publicações em revistas sem processo de revisão por pares. Por sua vez, a honestidade científica é medida pela presença de conflitos de interesse na pesquisa (veja o post sobre o “efeito financiamento” aqui na página), experiência prévia de plágio ou fraude, supressão de evidências etc. Finalmente, a responsabilidade epistêmica seria avaliada pelas atitudes de evadir o compartilhamento de dados e fontes sem razão nenhuma, publicar resultados na mídia antes de defendê-lo perante outros especialistas e continuar repetindo afirmações já refutadas. Embora reconheça haver vários fatores que dificultam a aplicação desses critérios, Elizabeth mostrou como eles podem ser facilmente aplicados através de rápidas buscas na internet no caso específico do aquecimento global antrópico. Fica, então, a sugestão de aplicá-los a alguns negacionistas brasileiros 😉

Muito mais sério: 
Elizabeth Anderson – Democracy, Public Policy, and Lay Assessments of Scientific Testimony. Episteme, vol. 8, n. 2, p 144 -164, 2011.
John Hardwig – Dependência epistêmica. Tradução de Desidério Murcho. Crítica. 02 dez 2018. https://criticanarede.com/filos_epis.html
Helen Longino – The Social Dimensions of Scientific Knowledge. SEP. https://plato.stanford.edu/archives/sum2019/entries/scientific-knowledge-social/

“Dois papas” e filosofia da religião

Publicado em 13 de janeiro de 2020

Disponibilizado na plataforma Netflix desde dezembro de 2019 e dirigido por Fernando Meirelles, o filme “Dois Papas” permite várias leituras. Desde uma perspectiva filosófica, chama atenção um dos temas que perpassa todo o drama: o silêncio ou ocultamento de Deus (Deus aqui como um conceito subjacente às três grandes religiões abraâmicas), isto é, a ausência de certa experiência religiosa em pessoas que buscam uma relação com Deus. Por exemplo, a seguinte passagem de Anselmo de Cantuária (1033-1109): “O que fará teu servo, ansioso amor por ti, depravado de sua presença? Ele se esforça para o ver, e tu está demasiado longe”. O ocultamento de Deus é discutido na filosofia contemporânea da religião pelo menos de dois modos. Por um lado, é um fenômeno que urge uma explicação – especialmente para teístas. Como Deus pode ser puro amor e se esconder, minando a fé mesmo de pessoas notáveis dentro da própria tradição religiosa (um spoiler nada prejudicial: ambos os papas passam por isso no filme)? Por outro lado, esse mesmo fenômeno foi utilizado de modo a implicar inexistência de Deus. Formulado por J. L. Schellenberg em 1993, o intitulado “argumento da descrença” é mais ou menos assim: há pessoas que são capazes (cognitiva e afetivamente) de ter uma relação com Deus e, então, acreditarem em sua existência. Ok. Não obstante, sem nenhuma culpa por parte delas, elas falham em acreditar na existência dele. Ora (lá vem), se Deus fosse puro amor, qualquer pessoa capaz de ter uma relação com ele acreditaria que ele existe. Logo, um tal Deus não existe. Esse argumento do Schellenberg despertou reações diversas: há críticas ao conceito de Deus pressuposto e outras direcionadas ao tipo de relação que ele poderia estabelecer com suas criaturas. Há, igualmente, pesquisas da ciência cognitiva da religião procurando entender o fenômeno do ocultamento divino. Isso você não encontra no filme, mas nas referências abaixo nos comentários. Portanto, assista ao drama e venha ler tudo aqui depois. Até a próxima! 

Muito mais sério: 
Bibliografia a respeito no Philpapers: https://philpapers.org/browse/divine-hiddenness
Coleção de textos recentes: Green, Adam & Stump, Eleonore (eds.). Hidden Divinity and Religious Belief: New Perspectives. Cambridge: Cambridge University Press, 2016.
Verbete SEP: https://plato.stanford.edu/entries/divine-hiddenness/

Ordem e progresso

Publicado em 25 de novembro de 2019

Há exatos dez dias, 15 de novembro de 2019, houve o feriado em comemoração à Proclamação da República, acontecimento histórico que suscita questões diversas. Vamos focar em uma delas. Talvez você já tenha ouvido falar da influência do positivismo nos atores responsáveis pela formação da República. Um sinal claro disso é a presença do lema “Ordem e Progresso” na nova bandeira, alusão a uma fórmula do filósofo francês Augusto Comte (1798-1857) recorrente em vários de seus textos: “O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim”. A menção explícita ao Comte evidencia uma grande influência de sua obra no Brasil no século XIX. Essa influência, porém, não foi apenas passiva, como uma simples menção a uma de suas ideias na bandeira poderia sugerir. O positivismo de Comte foi, na verdade, objeto de discussão de vários filósofos brasileiros desse período: Luís Pereira Barreto (1840-1923), Nísia Floresta (1810-1885), Sílvio Romero (1851-1914), entre outros. Essa história é menos conhecida e, para nela adentrar de maneira adequada, nada melhor que folhear as referências abaixo integralmente disponíveis na internet. Uma ótima leitura!

Muito mais sério:

CANHADA, Julio Miranda. Construções de um século: discursos filosóficos no Brasil oitocentista. 2017. Tese (Doutorado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/…/tde-12052017-155905/pt-br.php>. Acesso em 17 nov 2019.
COMTE, Augusto. Curso de filosofia positiva; Discurso sobre o espírito positivo; Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo; Catecismo positivista. Seleção de textos e traduções de José Arthur Giannotti. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores). Disponível em: <http://www.ldaceliaoliveira.seed.pr.gov.br/…/Colecao_Os…> Acesso em 17 nov 2019.
PINTO, Paulo Margutti. Nísia Floresta, uma brasileira desconhecida: Feminismo, positivismo e outras tendências. Porto Alegre: Editora Fi, 2019. Disponível em: <https://www.editorafi.org/536nisia>. Acesso em 17 nov 2019.

Vieses cognitivos

Publicado em 18 de novembro de 2019

Um ministro que nega o aquecimento global por ter passado frio em Roma. Aquele tio que, após receber uma notícia refutando o que acreditava, passa a acreditar ainda mais no que ela critica. Nós mesmos, na maioria do tempo, interpretando o que quer que seja como uma prova de nossas ideias prediletas. Feliz ou infelizmente, atitudes como essas podem, de certo modo, ser explicadas pela noção de vieses cognitivos – objeto de estudo da psicologia cognitiva de uns 60 anos pra cá. De modo grosseiro, eles podem ser definidos como desvios sistemáticos de padrões de racionalidade em nossos juízos ou tomadas de decisão. Interpretar o que quer que seja como prova de uma ideia predileta é um deles (viés de confirmação). Ao receber uma refutação, passar a acreditar ainda mais no que foi refutado, outro (efeito tiro pela culatra). A tendência de indivíduos com pouco conhecimento acharem que, na verdade, eles sabem muito mais – o que leva um ministro a pronunciar, sem receio nenhum, uma confusão básica sobre a distinção entre clima e tempo -, mais outro (efeito Dunning-Kruger). Nem todos os resultados sobre essa temática, contudo, nos deixam ainda mais desesperançosos com a possibilidade de melhorarmos nossas práticas cognitivas. Em um artigo de 2010 no contexto de uma pesquisa sobre comportamento de eleitores, foi descoberto um ponto de inflexão a partir do qual a presença massiva de informações contrárias a expectativas prévias passa, finalmente, a ter um papel de desconfirmação: eleitores não são imunes a informações que desconfirmem suas opiniões, conclui o estudo. E saber disso tudo, seres com polegares, tem qual efeito?

Artigo de 2010 (The Affective Tipping Point: Do Motivated Reasoners Ever “Get It”?): https://doi.org/10.1111/j.1467-9221.2010.00772.x
Capítulo 3 de MCINTYRE, Lee. Post-truth. Cambridge: MIT Press, 2018.
Davi Carvalho – POR QUE AS PESSOAS ACREDITAM EM FAKE NEWS, SEGUNDO A PSICOLOGIA SOCIAL. https://www.blogs.unicamp.br/…/fake-news-por-que-as…/…
KAHNEMAN, David. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
Série de vídeos sobre vieses cognitivos (Wireless Philosophy): https://youtu.be/TCBALVumrUQ

Uma só andorinha não faz verão

Publicado em 13 de novembro de 2019

Sim, o famoso ditado popular “uma só andorinha não faz verão” foi enunciado por Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C), em uma célebre passagem de seu livro “Ética a Nicômaco”: “[…] o bem do homem nos aparece como uma atividade da alma em consonância com a virtude, e, se há mais de uma virtude, com a melhor e mais completa. Mas é preciso ajuntar ‘numa vida completa’. Porquanto uma andorinha não faz verão, nem um dia tampouco; e da mesma forma um dia, ou um breve espaço de tempo, não faz um humano feliz e venturoso”. Tampouco faz um humano feliz e venturoso explicar, de imediato, essa passagem. Aos leitores dessa página-andorinha, deixo para vocês a interpretação do trecho acima 😉

Muito mais sério:
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Pietro Nasseti. São Paulo: Martin Claret, 2006.
Edição Os Pensadores (Aristóteles). Disponível em: <https://abdet.com.br/…/wp-content/uploads/2014/12/Ética-a-N…>
BARNES, Jonathan. Aristotle: A Very Short Introduction. Oxford: OUP, 2001.
Verbete SEP: https://plato.stanford.edu/archi…/win2016/entries/aristotle/>

A maçã de Newton e outras lendas

Publicado em 11 de novembro de 2019

Uma maçã cai na cabeça de Issac Newton (1643-1727) e, não mais que de repente, tem-se criada a teoria da gravitação universal. Essa lenda da história da ciência foi mencionada em uma questão do ENEM de 2019. O texto com a lenda, porém, não foi escrito pela fonte dada pela prova: trata-se de uma citação feita pelo Professor Roberto de Andrade Martins de um curso chamado “The English Enlightenment”. O Professor Roberto não endossa, portanto, a lenda mencionada pela citação, como a questão faz parecer. Na verdade, ele a critica em diversas frentes em seu texto. Vejamos. Relatos de amigos próximos a Newton indicam que, muito provavelmente, houve o caso maçã no seguinte sentido: ele, meditando em seu jardim, viu uma maçã caindo e conjecturou se a gravidade não existiria também a grandes distâncias, além de perto da Terra. Essa descrição já mostra um falseamento da história que a lenda promove: pensar que Newton somente conjecturou a ideia de gravidade com o caso da maçã. Ora, não há como pensar que o âmbito da gravidade é maior ou menor se já não se tem uma alguma ideia de seu domínio. Ademais, conjecturar um âmbito maior da noção de gravidade ainda não constitui a teoria da gravitação de Newton (“todos os corpos se atraem com forças proporcionais às suas massas e inversamente proporcionais às distâncias”). A lenda confunde, portanto, essa teoria com uma simples explicação da queda de uma maçã pela gravidade – coisas bem distintas. Daí, também outro falseamento produzido: a ideia de que descobertas científicas ocorrem em um piscar de olhos. Conforme o próprio texto do Prof. Roberto mostra, Newton demorou anos para chegar à teoria da gravitação, tendo antes refeito cálculos, estudado outros autores (e.g., Descartes, Huygens, Galileu) etc.. Esses são os efeitos danosos de uma narrativa que, à primeira vista, parece inócua. Um outro caso seria o tal do suposto encontro entre D. Pedro II e Nietzsche ou mesmo aquele da filha mecânica (!) de Descartes. As consequências dessas últimas lendas você encontra nas referências abaixo.

Muito mais sério:

MARTINS, Roberto de Andrade. A maçã de Newton: história, lendas e tolices. In: SILVA, Cibelle Celestino(ed.). Estudos de história e filosofia das ciências: subsídios para aplicação no ensino. São Paulo: Livraria da Física, 2006. Disponível em: <https://www.academia.edu/…/A_maçã_de_Newton_história…>
Nietzsche e D. Pedro II: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext…
A filha autômata de Descartes: https://doi.org/10.1017/S147924431600024X

Aquecimento global: fontes do consenso

Publicado em 04 de novembro de 2019

Em uma pesquisa de opinião pública sobre aquecimento global publicada em julho deste ano, o Instituto Datafolha revelou que 15% dos 2086 entrevistados acreditavam na tese segundo a qual a Terra não está ficando mais quente, ao passo que os 85% restantes pensavam que ela está. Dentro da parcela que concordava com o aquecimento global, 72% criam que as atividades humanas contribuem muito para o aquecimento, enquanto que 18% pensavam que elas contribuem pouco e, finalmente, 10% acreditavam que tal contribuição não existe. Somando os 10% de 85% (8,5%) que acreditavam no aquecimento global, mas não na contribuição humana para ele, com os 15% dos entrevistados que não concordavam que a Terra está se aquecendo, temos 23,5% dos entrevistados na contramão do consenso científico sobre essa temática. De onde vem tal consenso?Em uma revisão bibliográfica de 928 artigos científicos sobre mudanças climáticas publicados em periódicos de 1993 a 2003 (referências abaixo, leitores ansiosos), Naomi Oreskes não encontrou sequer um contrário à tese de que o aquecimento global é devido a atividades humanas. Em um levantamento mais recente, que analisou 11.944 artigos publicados de 1991 a 2011, descobriu-se que 97,1% endossavam a tese do aquecimento global antropogênico (isto é, causado pelo ser humano). Curiosamente, uma pesquisa que tentava reproduzir os resultados dos 2% restantes encontrou diversas falhas metodológicas. Esses resultados interessam à filosofia de diversas formas; em particular, alguns filósofos têm se dedicado a entender melhor o que caracteriza esse consenso qualificado em torno do aquecimento global antropogênico e as razões para ele ser confiável. Sobre isso, a gente conversa outro dia. Por enquanto, dados para embasar e fomentar a discussão.

Muito mais sério:
Artigo Oreskes (“The Scientific Consensus on Climate Change”): https://science.sciencemag.org/content/306/5702/1686/tab-pdf
Artigo levantamento 2013 (“Quantifying the consensus on anthropogenic global warming in the scientific literature”): https://iopscience.iop.org/…/1748-9326/8/2/024024/pdf 
Artigo dos 2% (“Learning from mistakes in climate research”): https://link.springer.com/…/10.1007/s00704-015-1597-5… 
Artigo sobre epistemologia social e IPCC: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/japp.12178 
Matéria Datafolha: http://datafolha.folha.uol.com.br/…/1988289-para-85-dos…

Love Truth Again!

Publicado em 28 de outubro de 2019

Quando o historiador israelense Yuval Noah Harari (autor do best-seller “Sapiens”) disse que a filosofia poderia ser a profissão do futuro, filósofos começaram a ansiar pelo porvir como nunca antes. Para ele, a intensificação da inteligência artificial demandaria mais filósofos para auxiliar na programação de máquinas que lidem com dilemas morais. O autor, porém, faz um alerta: será possível, pela primeira vez na história, processar filósofos pelos resultados de suas teorias. É esse realmente o caso? Mais precisamente, ideias filosóficas têm sido até hoje inócuas? Vivendo em “circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais” (a célebre definição de pós-verdade dada pela Oxford Dictionaries), parece que, se há algum fator filosófico que colaborou com essa situação, então não, não é o caso que ideias filosóficas tenham sido inócuas. Em um livro sobre a temática da pós-verdade publicado em 2018, o filósofo da ciência Lee McIntyre (Boston University) analisa cinco fatores que contribuíram para a pós-verdade: negacionismo científico (veja nosso post “Mercadores da dúvida”), vieses cognitivos, derrocada da mídia tradicional, surgimento de mídias alternativas e… pós-modernismo. McIntyre define pós-modernismo a partir de duas teses: não há verdade objetiva e qualquer declaração de verdade é meramente reflexo da agenda política de seu enunciador. Embora alguns autores defendam que a corrente pós-moderna teve um impacto apenas dentro das universidades (não vemos o Ricardo Salles citando Derrida para negar mudanças climáticas, por exemplo), McIntyre mostra que isso é falso: o fundador do movimento contrário ao ensino da teoria evolutiva nas escolas estadunidenses cita explicitamente autores e teses pós-modernas para sustentar suas propostas; e Mike Cernovich, um dos grandes blogueiros apoiadores de Trump (517 mil seguidores no Twitter), fez o mesmo ao defender suas teorias conspiratórias durante as eleições de 2016 nos EUA. Para finalizar, uma citação do próprio McIntyre: “Esse é o custo de brincar com ideias como se elas não tivessem consequências. É bem divertido atacar a verdade na academia, mas o que acontece quando as táticas vazam para as mãos de negadores da ciência e de teóricos da conspiração, ou políticos que insistem serem seus instintos melhores do que qualquer evidência?”. Atenção ao vão entre o trem e a plataforma, filósofos. 

Muito mais sério:
Bruno Latour pedindo desculpas: http://www.bruno-latour.fr/…/89-CRITICAL-INQUIRY-GB.pdf 
McIntyre, Lee. Post-truth. Cambridge: MIT Press, 2018.
Matéria Harari: https://economia.uol.com.br/…/filosofia-pode-ser… 
Robert Pennock. The Postmodern Sin of Intelligent Design Creationism. Science & Education 19.6-8 (2010): 757-78

Efeito financiamento

Publicado em 21 de outubro de 2019

Em tempos em que o financiamento privado de pesquisas científicas é encarado como uma panaceia, é importante refletir um pouco sobre seus limites. Desde a década de 90, alguns filósofos da ciência e epistemólogos sociais têm se dedicado a essa tarefa. Um dos principais resultados ao qual chegaram ficou conhecido sob o rótulo “efeito de financiamento”: a tendência de pesquisas científicas apoiarem as posições de quem as financiou. Mais concretamente, um levantamento mostrou que artigos sobre ensaios médicos financiados por instituições com interesse financeiro no resultado têm, aproximadamente, quatro vezes mais chances de apresentar resultados favoráveis a essas instituições do que artigos financiados independentemente. O caso mais flagrante é o do medicamento Vioxx, retirado de circulação em 2004. Dúvidas sobre seus efeitos colaterais por parte dos cientistas responsáveis pela sua criação existiam desde antes de sua disseminação. Pesquisas para investiga-las foram, porém, desencorajadas pela empresa, a qual, quando esteve sob pressão pública para provar a segurança do medicamento, divulgou relatórios e artigos em que os pesquisadores omitiam dados essenciais. Como impedir casos como esse também é um tema amplamente discutido: criação de mais órgãos reguladores ou sua extinção? eliminar ou não patentes? pesquisa totalmente pública ou também essa promove vieses? Mais uma vez, a questão não é fácil e, pior, em tempos como esse ela sequer aparece. Esse efeito, contudo, há de passar 😉

Muito mais sério:

Biddle, Justin. Lessons from the Vioxx Debacle: What the Privatization of Science Can Teach Us About Social Epistemology. Social Epistemology: A Journal of Knowledge, Culture and Policy, vol. 21, n. 1, p. 21-39, 2007.
Elliot, Kevin C.; Steel, Daniel (eds.). Current Controversies in Values and Science. New York: Routledge, 2017.
Oliveira, Marcos Barbosa de. Desmercantilizar a tecnociência. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (Org.). Conhecimento prudente para uma vida decente: “Um discurso sobre as ciências” revisitado. São Paulo: Cortez, 2004. p. 241-266
Resnik, David B. The price of truth: How money affects the norms of science. Oxford: Oxford University Press, 2007.

Sei que 'x' é melhor que 'y', mas faço 'x'?

Publicado em 16 de outubro de 2019

Você considera que fazer “x” é melhor que fazer “y”, ainda assim faz, de maneira intencional, “y”. A esse tipo de situação a filosofia cunhou o termo acrasia, incontinência ou fraqueza da vontade. Desde Sócrates até hoje, filósofos se interrogam sobre sua possibilidade ou impossibilidade e, admitindo o primeiro caso, sua racionalidade ou irracionalidade. Embora pareça muito plausível defender que ela é possível, pode-se questionar se, no caso em que alguém realiza uma ação do gênero, ela realmente sabia que “’x’ é melhor que ‘y’”. O debate sobre a acrasia discute, então, como um juízo sobre qual é a melhor ação a ser feita influencia a própria ação. Supondo a possibilidade da acrasia, parece que há muito mais em jogo na ação de alguém do que seus juízos e motivações, o que explicaria sua possibilidade. Há, em particular, uma tradição filosófica segundo a qual o ambiente em que está determinada pessoa pode tirar qualquer papel do que ela pensa ser mais racional no seu agir (para alguém que quer evitar bebidas alcoólicas, é muito mais difícil fazê-lo em um bar do que antes de uma reunião importante de trabalho dentro de um prédio onde só há água, café e exploração). Entretanto, enfatizar demais aspectos externos a um agente não permite explicar por que, afinal de contas, a ação acrática nos parece estranha, uma vez que o juízo de que “x’ é melhor que y’” parece ter ali um papel muito importante. Assim como tudo em filosofia, não há resposta pronta ou fácil. Particularmente, eu consideraria que ler as referências abaixo é o melhor a ser feito.

Muito mais sério:
O Problema da Fraqueza da Vontade na Filosofia Prática Kantiana (Antonio Frederico Saturnino): https://revistas.ufrj.br/…/ana…/article/view/16233/10171
Seção V de Viver bem – a ética de Aristóteles (Christopher Shields): https://criticanarede.com/viverbem.html
Verbete SEP (Sarah Stroud e Larisa Svirsky): https://plato.stanford.edu/entries/weakness-will/