Filosofia no ENEM

Publicado em 14 de outubro de 2019

Filosofia é uma das disciplinas que compõe a área de “Ciências Humanas e suas Tecnologias” do Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM), cujas provas acontecem no próximo mês. Sua presença nesse exame levanta questões diversas. Fica para outro dia a discussão delas. Hoje, gostaria apenas de fornecer algumas referências confiáveis para os candidatos revisarem o conteúdo desse saber que jamais se esgota em décadas de estudo, que dirá no conteúdo de uma prova ou nos três anos em que ela é estudada no ensino médio. Pois bem, o Guia do Estudante publicou um levantamento com os temas mais cobrados de filosofia. O site, porém, direciona cada conteúdo a suas próprias matérias sobre o assunto as quais não são, por vezes, adequadas. Seguem a seguir, então, o levantamento e três referências online mais bem fundamentadas que, certamente, poderão lhe ajudar nessa reta final. Desde já, um ótimo exame! 😉

Levantamento:
Aristóteles e escola helenística (18,8%)
Racionalismo moderno (18,8%)
Escola sofística, Sócrates e Platão (12,5%)
Filosofia contemporânea (12,4%)
Escola de Frankfurt (9,4%)
Filosofia Medieval (6,3%)
Idealismo alemão (6,3%)
Renascimento (6,3%)
Immanuel Kant (3,1%)
O surgimento da Filosofia (3,1%)

Muito mais sério:
Aires Almeida – Dicionário escolar de filosofia: https://criticanarede.com/dicionario.html
Juvenal Savian Filho – Filosofia e Filosofias: https://issuu.com/editoraftd/docs/filosofia_autentica
Podcast Filosofia Pop: https://filosofiapop.com.br/category/podcast/
Matéria guia do estudante: https://guiadoestudante.abril.com.br/…/quais-os-assuntos-m…/

Árbitro de vídeo e filosofia da tecnologia

Publicado em 30 de setembro de 2019

Há poucos anos, grandes expectativas eram colocadas no árbitro assistente de vídeo (na sigla em inglês, o famigerado VAR). “Sem mais polêmicas em erros cruciais de arbitragem”, prometiam. Hoje, é raro passar uma semana sem ouvir alguma discussão em torno dele. Uma parte do debate talvez ocorra pelo desmoronamento da ilusão de infalibilidade que permeava essa tecnologia – ilusão que favorece a quem? Outra parte, porém, deriva de afirmações segundo as quais o árbitro de vídeo tem mudado o funcionamento do jogo de futebol. Exemplos: além de que a demora na revisão atrapalharia a fluidez da partida, alega-se, por vezes, que ele eliminaria o fator humano de grande parte das decisões de tal esporte – ou mesmo que acabaria promovendo a ideia de que o futebol é um jogo dependente exclusivamente das decisões dos juízes em detrimento daquelas feitas pelos técnicos e jogadores. Subjacente a falas como essa, está presente, eventualmente, uma crítica à tese da neutralidade da tecnologia. Ora, se o árbitro de vídeo promove certos fins e não outros, então uma tecnologia não é exclusivamente, digamos, sua função técnica: ela também incorpora certos valores (éticos, políticos, estéticos, etc.) que podem entrar em conflito com os valores do meio em que ela será inserida. Ao se reconhecer a não-neutralidade da tecnologia, torna-se evidente como ela pode ser alterada de modo a incorporar valores outros. De todo modo, a discussão sobre quais valores devem ser incorporados pouco tem de… técnica! Falibilidade, neutralidade e natureza da tecnologia são algumas das discussões da chamada Filosofia da Tecnologia, área cuja incidência, como vimos, está tão perto de nós como uma discussão sobre o VAR no fim da rodada.

Muito mais sério:
Collins, H. The Philosophy of Umpiring and the Introduction of Decision-Aid Technology. Journal of the Philosophy of Sport, vol. 37, n.2, p.135–146, 2010.
Cupani, A. Filosofia da Tecnologia: um convite. Florianópolis: Editora da UFSC, 2011.
Dusek, V. Filosofia da Tecnologia. Tradução de Luis Carlos Borges. São Paulo: Edições Loyola, 2009.
Johnson, C., & Taylor, J.. Rejecting Technology: A Normative Defense of Fallible Officiating. Sport, Ethics and Philosophy, vol. 10, n. 2, p. 148–160, 2016..
Rohden, L. [et al.]. Filosofia e futebol: troca de passes. Porto Alegre: Sulina, 2012.

Mercadores da dúvida

Publicado em 25 de setembro de 2019

Ainda sem tradução para o português, o livro “Mercadores da dúvida” dos historiadores da ciência Naomi Oreskes (Harvard) e Erik Conway (Caltech) em muito auxilia a entender as campanhas difamatórias contra a ciência e os cientistas. Resultado de cinco anos de pesquisa em arquivos quase que integralmente disponibilizados na internet, os autores mostram as estratégias promovidas por parte da indústria, da mídia e de alguns cientistas para negar, mitigar ou dissolver o consenso científico em torno de resultados danosos à indústria, como a relação de causalidade entre tabaco e câncer de pulmão ou a contribuição das indústrias de combustíveis fósseis para as mudanças climáticas. “A dúvida é nosso produto” como diria um executivo em 1969. Para fomentá-la, o apelo à ideia de que a mídia deveria mostrar os dois lados de cada assunto – entre outras coisas. Mostrar os dois lados de cada assunto não deveria ser, como dizem os autores, dar igual peso a ambos, senão evidenciar precisamente qual lado tem mais peso. Pois bem, no caso das mudanças climáticas, centenas de programas de TV ainda mostravam o assunto como não consensual entre cientistas nos anos 2000. Em uma análise de 928 artigos científicos publicados em periódicos sobre o tema entre 1992 e 2002, Oreskes trouxe um resultado espantoso: nenhum deles discordava de que o aquecimento global é devido ao aumento de gases do efeito estufa. Ainda assim, cientistas apoiados financeiramente por grandes corporações (e sem especialidade em climatologia) negavam tais resultados em jornais de grande circulação. Cientistas do clima procuravam respondê-los. Quando publicadas, suas cartas de resposta eram drasticamente editadas. Quando não eram publicadas, eles as enviavam para periódicos científicos cuja circulação jamais atingiria o mesmo público de um grande jornal. Por que tudo isso? Para os autores, porque o cerne da questão é, na verdade, regulação e não ciência. Não à toa, negacionistas alegam a possibilidade do fim da liberdade individual ou o advento de uma ditadura ao se abordar tais questões. Por que não, afinal de contas, discutir regulação diretamente?

Muito mais sério:
BIDDLE, J., [et al.]. Epistemic Corruption and Manufactured Doubt: The Case of Climate Science. Public Affairs Quarterly, vol., 31, n. 3, p. 165-187, 2017.
Páginas do Professor Alexandre Araújo Costa (UECE): Instagram: @alexandre_araujoc; Twitter: @alexaraujoc; Facebook: https://www.facebook.com/OQueVoceFariaSeSoubesse/; Blog: http://oquevocefariasesoubesse.blogspot.com; Canal: https://www.youtube.com/channel/UCxgRxPTCZqeB6Rx_VKvVN6A .
LEITE, J. C.. Controvérsias científicas ou negação da ciência? A agnotologia e a ciência do clima. Scientiae Studia (USP), v. 12, p. 179-189, 2014.
ORESKES, N.; CONWAY, E. M.. Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming. Nova York: Bloomsbury Press, 2010.
Site do livro: https://www.merchantsofdoubt.org/home/key-documents/

Filosofia e setembro amarelo

Publicado em 16 de setembro de 2019

Ainda que estudado por diversas ciências, o tema do suicídio levanta, também, várias questões filosóficas. Defini-lo, analisar argumentos contrários ou favoráveis, e investigar a legitimidade de intervenções institucionais visando sua prevenção são alguma das tarefas às quais os filósofos se dedicam. Dada a campanha “setembro amarelo”, vale a pena discutir o que embasa ações do gênero ou mesmo intervenções estatais relacionadas a ele. Desde já, é importante notar que a filosofia é consequente: seu exercício exige aceitar as consequências das ideias propostas, mesmo que sejam resultados pelos quais temos aversão; ao ser assim, a filosofia tem o mérito de trazer à tona elementos que dificilmente seriam debatidos em outras áreas. No caso da temática do suicídio, os argumentos que tentam justificá-lo. Pois bem, um de tais argumentos advém de uma corrente segundo a qual quaisquer ações que limitam a autonomia do indivíduo são erradas. Para seus proponentes, temos uma relação de propriedade com o nosso corpo que permite não importa qual ação, desde que realizada racionalmente – a partir de informações adequadas, com bons raciocínios, etc. Além de enfrentar alguns obstáculos teóricos, a condição de racionalidade na escolha do suicídio é, praticamente, irrealizável. Segundo um importante estudo (referências nos comentários), em mais de 90% dos casos de suicídio as pessoas tinham alguma doença mental, as quais impossibilitam uma apreciação minimamente adequada de suas próprias possibilidades futuras de vida, suas capacidades e sua relação com os outros.
Uma decisão racional nesse contexto é, então, extremamente improvável – além de irreversível. Portanto, é muito mais prudente ter campanhas de prevenção ou mesmo algumas intervenções paternalistas a deixar os indivíduos tomarem, por si só, uma decisão que é, na maioria esmagadora dos casos, irrefletida.


Muito mais sério:
Bertolote, J. M., & Fleischmann, A. Suicide and psychiatric diagnosis: A worldwide perspective. World Psychiatry, vol. 1, 181-185, 2002.
Manual “Comportamento suicida: conhecer para prevenir” da Associação Brasileira de Psiquiatria : https://www.abp.org.br/manual-de-imprensa
PUENTE, Fernando Rey (Org.). Os Filósofos e o Suicídio. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
The Ethics of Suicide Digital Archive: https://ethicsofsuicide.lib.utah.edu
Verbete SEP: https://plato.stanford.edu/entries/suicide