Ciência e valores

Publicado em 06 de abril de 2020

A pandemia pela qual estamos passando tem suscitado questões diversas. Gostaria de mencionar, hoje, apenas aquelas que são investigadas por um ramo da filosofia da ciência chamado “ciência e valores”. Talvez vocês tenham visto governos que, se antes flertavam com conspirações anti-vacina, agora exigirem, de qualquer maneira e o mais rápido possível (além de com aqueeeela incoerência), uma vacina para o novo vírus. Ações como essa tem recebido forte reação da comunidade científica dos países envolvidos, uma vez que elas atropelariam todo o custoso processo de elaborar algo do gênero e suas medidas de segurança. Apenas tendo em mente esse cenário, várias questões espinhosas aparecem: em que condições intervenções governamentais no modo de agir da comunidade científica são legítimas? quais linhas de pesquisa e áreas científicas devem ser priorizadas em uma determinada sociedade, se for o caso de que algumas devam? quais as responsabilidades dos cientistas na elaboração, realização e comunicação de experimentos? como subsidiar políticas públicas em situações urgentes quando ainda não há evidência minimamente conclusiva sobre elementos importantes? o objetivo das ciências deve ser apenas o entendimento de fenômenos ou também o bem-estar da sociedade? Se for ambos objetivos, como organizá-los de modo a evitar que proposições sejam o caso simplesmente por que se quer que sejam? Caso você tenha se interessado por essas questões, listei abaixo algumas referências (autoria e título) sobre elas. A maioria está em português e é de fácil localização na internet. Aproveitem

Muito mais sério:

Brena Paula Magno Fernandes – Entrevista com Hugh Lacey
Débora Aymoré – Objetividade forte como alternativa à ciência livre de valores
Débora Aymoré, Kelly Koide e Mariana Toledo Ferreira – Ativismo, feminismo e filosofia da ciência: Entrevista com Helen Longino 
José Correa Leite – Controvérsias científicas ou negação da ciência? A agnotologia e a ciência do clima.
Kelly Koide, Mariana Toledo Ferreira, Marison Marini – Arqueologia e a crítica feminista: Entrevista com Alison Wylie.
Kevin Elliot – A Tapestry of Values: An Introduction to Values in Science
Marcos Barbosa de Oliveira – Formas de autonomia da ciência
Pablo Mariconda e Hugh Lacey – A águia e os estorninhos: Galileu e a autonomia da ciência
Philip Kitcher – Science in a Democratic Society
Revista Questão de Ciência – Em tempos de crise, vigilância contra má ciência deve ser redobrada
Stephen John – Inductive risk and the contexts of communication

Como avaliar o testemunho de especialistas?

Publicado em 17 de fevereiro de 2020

De modo geral, políticas públicas destinadas a mitigar problemas atuais dependem de vastas e complexas pesquisas científicas – basta pensar, por exemplo, no aquecimento global antrópico. Raramente, algum ator político possui também os requisitos necessários para avaliar o que os cientistas estão dizendo. Nessas condições, como poderia, então, um leigo avaliar o testemunho de cientistas? Essa é uma das questões debatidas na epistemologia social contemporânea. Elizabeth Anderson, uma das filósofas que buscou respondê-la, disse grosseiramente o seguinte: não há como leigos avaliarem o conteúdo propriamente dito das pesquisas; em geral, eles julgam o que acreditar julgando em quem acreditar; é preciso, portanto, critérios para avaliar quando o testemunho de especialistas é confiável e quando há um consenso entre eles; esses critérios, por fim, precisam ser de fácil aplicação a um leigo. Vamos nos focar nos critérios para avaliar o testemunho de especialistas. Elizabeth propôs três deles: um para avaliar a expertise científica, outro para avaliar a honestidade científica e um último para avaliação da responsabilidade epistêmica. A expertise científica de um especialista seria examinada por sua formação. A ideia básica aqui é que alguém com doutorado no assunto em questão e com publicação em revistas científicas importantes é muito mais confiável que alguém com doutorado em outra área e publicações em revistas sem processo de revisão por pares. Por sua vez, a honestidade científica é medida pela presença de conflitos de interesse na pesquisa (veja o post sobre o “efeito financiamento” aqui na página), experiência prévia de plágio ou fraude, supressão de evidências etc. Finalmente, a responsabilidade epistêmica seria avaliada pelas atitudes de evadir o compartilhamento de dados e fontes sem razão nenhuma, publicar resultados na mídia antes de defendê-lo perante outros especialistas e continuar repetindo afirmações já refutadas. Embora reconheça haver vários fatores que dificultam a aplicação desses critérios, Elizabeth mostrou como eles podem ser facilmente aplicados através de rápidas buscas na internet no caso específico do aquecimento global antrópico. Fica, então, a sugestão de aplicá-los a alguns negacionistas brasileiros 😉

Muito mais sério: 
Elizabeth Anderson – Democracy, Public Policy, and Lay Assessments of Scientific Testimony. Episteme, vol. 8, n. 2, p 144 -164, 2011.
John Hardwig – Dependência epistêmica. Tradução de Desidério Murcho. Crítica. 02 dez 2018. https://criticanarede.com/filos_epis.html
Helen Longino – The Social Dimensions of Scientific Knowledge. SEP. https://plato.stanford.edu/archives/sum2019/entries/scientific-knowledge-social/

Efeito financiamento

Publicado em 21 de outubro de 2019

Em tempos em que o financiamento privado de pesquisas científicas é encarado como uma panaceia, é importante refletir um pouco sobre seus limites. Desde a década de 90, alguns filósofos da ciência e epistemólogos sociais têm se dedicado a essa tarefa. Um dos principais resultados ao qual chegaram ficou conhecido sob o rótulo “efeito de financiamento”: a tendência de pesquisas científicas apoiarem as posições de quem as financiou. Mais concretamente, um levantamento mostrou que artigos sobre ensaios médicos financiados por instituições com interesse financeiro no resultado têm, aproximadamente, quatro vezes mais chances de apresentar resultados favoráveis a essas instituições do que artigos financiados independentemente. O caso mais flagrante é o do medicamento Vioxx, retirado de circulação em 2004. Dúvidas sobre seus efeitos colaterais por parte dos cientistas responsáveis pela sua criação existiam desde antes de sua disseminação. Pesquisas para investiga-las foram, porém, desencorajadas pela empresa, a qual, quando esteve sob pressão pública para provar a segurança do medicamento, divulgou relatórios e artigos em que os pesquisadores omitiam dados essenciais. Como impedir casos como esse também é um tema amplamente discutido: criação de mais órgãos reguladores ou sua extinção? eliminar ou não patentes? pesquisa totalmente pública ou também essa promove vieses? Mais uma vez, a questão não é fácil e, pior, em tempos como esse ela sequer aparece. Esse efeito, contudo, há de passar 😉

Muito mais sério:

Biddle, Justin. Lessons from the Vioxx Debacle: What the Privatization of Science Can Teach Us About Social Epistemology. Social Epistemology: A Journal of Knowledge, Culture and Policy, vol. 21, n. 1, p. 21-39, 2007.
Elliot, Kevin C.; Steel, Daniel (eds.). Current Controversies in Values and Science. New York: Routledge, 2017.
Oliveira, Marcos Barbosa de. Desmercantilizar a tecnociência. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (Org.). Conhecimento prudente para uma vida decente: “Um discurso sobre as ciências” revisitado. São Paulo: Cortez, 2004. p. 241-266
Resnik, David B. The price of truth: How money affects the norms of science. Oxford: Oxford University Press, 2007.