Agnotologia

Publicado em 22 de março de 2021

Agnotologia se refere à construção social da ignorância e à área, composta principalmente por historiadores e filósofos da ciência, que a investiga. Há, pelo menos, três tipos de ignorância a serem estudados: ignorância como um estado primitivo a ser preenchido por conhecimento, ignorância como construção passiva e ignorância como construção ativa. Os dois últimos tipos se referem, respectivamente, ao que é deixado de lado durante investigações científicas por razões diversas (por exemplo, falta de incentivo econômico para pesquisar determinados objetos) e a estratégias deliberadas de criação de ignorância. Tais estratégias podem ser virtuosas nos casos em que não saber de algo é, reconhecidamente, justificado por determinados valores, evitando, assim, pesquisas a partir de métodos inapropriados, pesquisas que reforçam estereótipos de grupos marginalizados ou pesquisas com resultados perigosos. Nesses casos, reconhece-se que obter conhecimento não está nem deve estar acima de tudo. Mais comumente, porém, estratégias deliberadas de construção ativa de ignorância têm o objetivo de enganar e confundir o público em geral, como vemos nos diversos casos de negacionismo científico.Muito mais sério:

1️⃣Janet Kourany e Martin Carrier – Science and the Production of Ignorance (MIT Press, 2020)

2️⃣Robert N. Proctor e Londa Schiebinger – Agnotology: The Making and Unmaking of Ignorance (Stanford University Press, 2008)

3️⃣Sven Hansson – Science denial as a form of pseudoscience (Studies in History and Philosophy of Science, 2017)

Paradoxo da loteria

Publicado em 27 de abril de 2020

Depois do paradoxo da ficção, nada como outro paradoxo para nos entreter por algum intervalo de tempo e mudar o tom do que vemos por esses dias. Segue, então, uma sequência bem introdutória ao paradoxo da loteria. Ele é um pouco mais técnico que o outro, mas a diversão é garantida 😉
ps: agradeço ao Matheus Rui (UFSC) pela assessoria no post – um dos temas do doutorado dele é o paradoxo da loteria; vejam sua entrevista aqui na página.

Como avaliar o testemunho de especialistas?

Publicado em 17 de fevereiro de 2020

De modo geral, políticas públicas destinadas a mitigar problemas atuais dependem de vastas e complexas pesquisas científicas – basta pensar, por exemplo, no aquecimento global antrópico. Raramente, algum ator político possui também os requisitos necessários para avaliar o que os cientistas estão dizendo. Nessas condições, como poderia, então, um leigo avaliar o testemunho de cientistas? Essa é uma das questões debatidas na epistemologia social contemporânea. Elizabeth Anderson, uma das filósofas que buscou respondê-la, disse grosseiramente o seguinte: não há como leigos avaliarem o conteúdo propriamente dito das pesquisas; em geral, eles julgam o que acreditar julgando em quem acreditar; é preciso, portanto, critérios para avaliar quando o testemunho de especialistas é confiável e quando há um consenso entre eles; esses critérios, por fim, precisam ser de fácil aplicação a um leigo. Vamos nos focar nos critérios para avaliar o testemunho de especialistas. Elizabeth propôs três deles: um para avaliar a expertise científica, outro para avaliar a honestidade científica e um último para avaliação da responsabilidade epistêmica. A expertise científica de um especialista seria examinada por sua formação. A ideia básica aqui é que alguém com doutorado no assunto em questão e com publicação em revistas científicas importantes é muito mais confiável que alguém com doutorado em outra área e publicações em revistas sem processo de revisão por pares. Por sua vez, a honestidade científica é medida pela presença de conflitos de interesse na pesquisa (veja o post sobre o “efeito financiamento” aqui na página), experiência prévia de plágio ou fraude, supressão de evidências etc. Finalmente, a responsabilidade epistêmica seria avaliada pelas atitudes de evadir o compartilhamento de dados e fontes sem razão nenhuma, publicar resultados na mídia antes de defendê-lo perante outros especialistas e continuar repetindo afirmações já refutadas. Embora reconheça haver vários fatores que dificultam a aplicação desses critérios, Elizabeth mostrou como eles podem ser facilmente aplicados através de rápidas buscas na internet no caso específico do aquecimento global antrópico. Fica, então, a sugestão de aplicá-los a alguns negacionistas brasileiros 😉

Muito mais sério: 
Elizabeth Anderson – Democracy, Public Policy, and Lay Assessments of Scientific Testimony. Episteme, vol. 8, n. 2, p 144 -164, 2011.
John Hardwig – Dependência epistêmica. Tradução de Desidério Murcho. Crítica. 02 dez 2018. https://criticanarede.com/filos_epis.html
Helen Longino – The Social Dimensions of Scientific Knowledge. SEP. https://plato.stanford.edu/archives/sum2019/entries/scientific-knowledge-social/