Mais um filósofo no governo Biden-Harris: Kyle Whyte no Conselho de Justiça Ambiental

Publicado em 10 de maio de 2021

Em um post anterior, destaquei a nomeação de um filósofo para um cargo no Departamento de Energia dos EUA – o Andrew Light (aquele do pragmatismo ambiental metodológico, lembra?). Hoje eu gostaria destacar uma outra nomeação de mais um filósofo: a de Kyle Whyte para o Conselho de Justiça Ambiental da Casa Branca. Kyle tem publicado principalmente nas áreas de ética e política ambiental. Seus textos tratam, por exemplo, de como fomentar cooperação entre povos indígenas e não-indígenas, de como melhorar a educação ambiental, ou ainda dos méritos da ética do cuidado para lidar com questões relacionadas ao meio ambiente. O principal tema que perpassa sua trajetória é, porém, aquele mencionado no nome do conselho do qual fará parte: justiça ambiental. Nas primeiras vezes em que o conceito foi usado, justiça ambiental se referia à distribuição desigual de riscos ambientais. Pense, por exemplo, em qual parcela da população ainda não tem saneamento básico ou qual foi mais diretamente impactada pelos últimos desastres ambientais criminosos no Brasil e, então, você já terá entendido o conceito. Depois desse uso inicial e, em grande parte, pelo movimento social que carrega essa bandeira, o conceito de justiça ambiental foi ampliado para dar conta de outros elementos, tais como a necessidade de participação das pessoas envolvidas em processos decisórios ou a urgência de acomodar fatores não-humanos em um conceito de justiça. Conforme afirma, por fim, um outro pesquisador sobre justiça ambiental: “Quando interrompemos, corrompemos ou contaminamos o funcionamento potencial dos sistemas de apoio ecológico, cometemos uma injustiça não apenas aos seres humanos, mas também a todos os não-humanos que dependem da integridade do sistema para seu próprio funcionamento. É a perturbação e o aumento da vulnerabilidade da integridade dos ecossistemas que está no cerne da injustiça das mudanças climáticas, por exemplo, tanto em termos do seu impacto nas comunidades humanas vulneráveis como na natureza não-humana”.

Muito mais sério:
David Schlosberg – Theorising environmental justice: the expanding sphere of a discourse (Environmental Politics, 2013)
Kyle White – On the role of traditional ecological knowledge as a collaborative concept: a philosophical study (Ecological Processes 2013)
Rede Brasileira de Justiça Ambiental (https://rbja.org/)

Liberdade de expressão

Publicado em 20 de janeiro de 2021

Tirinha sobre algumas questões relacionadas ao tema da liberdade de expressão. Estou testando posts em que eu apresento um panorama geral de algum tema, como este. Se puderem, gostaria de ter algum retorno sobre o material ter cumprido ou não esse objetivo de apresentar, minimamente, a estrutura de algum debate (ou suas palavras-chave) e não propriamente algum conteúdo específico. Como sempre, referências ao final. Espero ter sido útil!

Uma só andorinha não faz verão

Publicado em 13 de novembro de 2019

Sim, o famoso ditado popular “uma só andorinha não faz verão” foi enunciado por Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C), em uma célebre passagem de seu livro “Ética a Nicômaco”: “[…] o bem do homem nos aparece como uma atividade da alma em consonância com a virtude, e, se há mais de uma virtude, com a melhor e mais completa. Mas é preciso ajuntar ‘numa vida completa’. Porquanto uma andorinha não faz verão, nem um dia tampouco; e da mesma forma um dia, ou um breve espaço de tempo, não faz um humano feliz e venturoso”. Tampouco faz um humano feliz e venturoso explicar, de imediato, essa passagem. Aos leitores dessa página-andorinha, deixo para vocês a interpretação do trecho acima 😉

Muito mais sério:
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Pietro Nasseti. São Paulo: Martin Claret, 2006.
Edição Os Pensadores (Aristóteles). Disponível em: <https://abdet.com.br/…/wp-content/uploads/2014/12/Ética-a-N…>
BARNES, Jonathan. Aristotle: A Very Short Introduction. Oxford: OUP, 2001.
Verbete SEP: https://plato.stanford.edu/archi…/win2016/entries/aristotle/>

Sei que 'x' é melhor que 'y', mas faço 'x'?

Publicado em 16 de outubro de 2019

Você considera que fazer “x” é melhor que fazer “y”, ainda assim faz, de maneira intencional, “y”. A esse tipo de situação a filosofia cunhou o termo acrasia, incontinência ou fraqueza da vontade. Desde Sócrates até hoje, filósofos se interrogam sobre sua possibilidade ou impossibilidade e, admitindo o primeiro caso, sua racionalidade ou irracionalidade. Embora pareça muito plausível defender que ela é possível, pode-se questionar se, no caso em que alguém realiza uma ação do gênero, ela realmente sabia que “’x’ é melhor que ‘y’”. O debate sobre a acrasia discute, então, como um juízo sobre qual é a melhor ação a ser feita influencia a própria ação. Supondo a possibilidade da acrasia, parece que há muito mais em jogo na ação de alguém do que seus juízos e motivações, o que explicaria sua possibilidade. Há, em particular, uma tradição filosófica segundo a qual o ambiente em que está determinada pessoa pode tirar qualquer papel do que ela pensa ser mais racional no seu agir (para alguém que quer evitar bebidas alcoólicas, é muito mais difícil fazê-lo em um bar do que antes de uma reunião importante de trabalho dentro de um prédio onde só há água, café e exploração). Entretanto, enfatizar demais aspectos externos a um agente não permite explicar por que, afinal de contas, a ação acrática nos parece estranha, uma vez que o juízo de que “x’ é melhor que y’” parece ter ali um papel muito importante. Assim como tudo em filosofia, não há resposta pronta ou fácil. Particularmente, eu consideraria que ler as referências abaixo é o melhor a ser feito.

Muito mais sério:
O Problema da Fraqueza da Vontade na Filosofia Prática Kantiana (Antonio Frederico Saturnino): https://revistas.ufrj.br/…/ana…/article/view/16233/10171
Seção V de Viver bem – a ética de Aristóteles (Christopher Shields): https://criticanarede.com/viverbem.html
Verbete SEP (Sarah Stroud e Larisa Svirsky): https://plato.stanford.edu/entries/weakness-will/