Filosofia da ciência: por onde começar?

Publicado em 09 de janeiro de 2022

Livros introdutórios são uma boa porta de entrada à filosofia da ciência. Em português, talvez os mais conhecidos e de mais fácil acesso sejam “O que é ciência afinal?” do A. Chalmers e “A ciência e as ciências” do G. Granger.

Outros livros introdutórios porém mais atualizados e um pouco mais avançados são: “Introdução à filosofia da ciência” da L. Bortolotti e “O desenvolvimento moderno da filosofia da ciência (1890–2000)” de C. Moulines.

Na leitura desses livros, você certamente irá encontrar alguns termos bem específicos da filosofia. Para entendê-los melhor, vale a pena consultar algum dicionário de filosofia (como o do F. Mora) ou os verbetes online da Stanford Encyclopedia of Philosophy (https://plato.stanford.edu/).

Vários desses verbetes foram traduzidos pela série “Investigação filosófica” da editora UFPEL, como ciência e pseudociência, objetividade científica, método científico, as dimensões sociais do conhecimento científico, modelos na ciência, representação científica, simulações computacionais na ciência…
https://wp.ufpel.edu.br/nepfil/serie-investigacao-filosofica/

Uma sugestão de livro em inglês e talvez um dos mais completos é “Theory and Reality” do P. Godfrey Smith. Por fim, uma pequena lista de outros de que fui lembrado através da interação com colegas no post:

  • “Representar e Intervir: Tópicos Introdutórios de Filosofia da Ciência Natural” do Ian Hacking;
  • “Ciência: conceitos-chave em filosofia” do Steven French;
  • “Imagens de natureza, imagens de ciência” e “Método & Ciência: uma abordagem filosófica” do Paulo Abrantes;
  • “A fabricação da ciência” outro do A. Chalmers; e
  • “Philosophy of Science: A Very Short Introduction” do Samir Okasha (há uma tradução ainda não publicada disponível na internet).

Boa leitura!

Um limite para a liberdade de investigação científica

Publicado em 14 de junho de 2021

Considerações sobre bem-estar podem se sobrepor à liberdade de pesquisa científica? Tirinha sobre um dos principais argumentos a favor de uma resposta positiva a essa questão. Segue o texto das imagens depois das hashtags.

Suponha uma sociedade onde determinados membros tenham uma qualidade de vida significativamente pior que a de outros e isso devido, em parte, pela crença ainda existente de que eles são naturalmente inferiores aos demais por possuírem determinadas características. No passado, essa crença era muito mais disseminada.

Suponha, além disso, que haja uma área científica A cujas pesquisas podem fornecer evidência a favor ou contra a hipótese de que “pessoas com a característica C são naturalmente menos adequadas para o papel P”.Cientistas devem realizar pesquisas nessa área A?

No livro “Ciência, Verdade e Democracia”, o filósofo Philip Kitcher responde negativamente a essa questão. Seu argumento parte da seguinte afirmação: “se não devemos nos envolver em empreendimentos que possam diminuir o bem-estar daqueles que já estão em situação pior do que outros membros da sociedade, devemos, portanto, evitar nos envolver em A”.

Kitcher defende que se algumas condições são satisfeitas, pesquisas da área A podem diminuir o bem-estar de pessoas que já estão em situação pior do que outras e, então, cientistas devem se abster de fazer tais pesquisas. Seguem as condições:

– assimetria política: se a evidência for contrária à hipótese, não haverá erradicação dela, MAS, se a evidência for favorável, ela voltará a ser amplamente disseminada causando uma diminuição da qualidade de vida de quem tem a característica C.

– assimetria epistêmica: a probabilidade atribuída à hipótese pelos membros da sociedade é maior do que aquela probabilidade fornecida por métodos confiáveis de pesquisa;

– a evidência obtida a partir da área A é indecisiva, ou seja, permite atribuir apenas 0,5 de probabilidade à hipótese em questão. MAS, o viés da sociedade em favor da hipótese é tão grande que seus membros elevam essa probabilidade a um valor próximo de 1.

Dadas essas condições, cientistas devem se abster de pesquisar A. Apesar de ser um argumento abstrato, Kitcher alega que há casos concretos que satisfazem essas condições, como algumas pesquisas em sociobiologia. Seja como for, essa discussão toda ilustra como considerações de bem-estar podem se sobrepor à liberdade de pesquisa científica.

Muito mais sério: Philip Kitcher – Science, Truth and Democracy (OUP, 2001)

Cientistas se interessam por filosofia da ciência?

Publicado em 01 de março de 2021

“A filosofia da ciência é tão útil para os cientistas quanto a ornitologia é para os pássaros”, teria dito um físico. É esse realmente o caso? Até duas semanas atrás, filósofos se defendiam dessa fala de duas maneiras. Agora, temos uma outra ainda melhor. Confira na tirinha 😉

Objetos matemáticos existem? O argumento da indispensabilidade

Publicado em 12 de outubro de 2020

É bem provável que você já tenha ouvido alguém perguntar “matemática: descoberta ou invenção?”. O que talvez você ainda não sabia é que essa questão é discutida por uma área da filosofia, a filosofia da matemática. A filosofia da matemática, porém, discute não apenas se objetos matemáticos existem ou são inventados, mas também: como podemos obter conhecimento deles, como teorias matemáticas se desenvolvem, qual o estatuto de provas computacionais, como dar conta de sua aplicação a fenômenos do mundo… Como toda discussão filosófica, o debate sobre esses temas é criterioso. Filósofos precisam, por exemplo, apresentar boas razões para suas posições. No caso da questão “matemática: descoberta ou invenção?”, há duas grandes delas: platonismo e nominalismo. Platonistas defendem que objetos matemáticos existem – ainda que sejam abstratos -, o que é negado pelos nominalistas. Há várias maneiras de ser platonista ou nominalista. Seja como for, uma das motivações para ser platonista é o chamado argumento da indispensabilidade da matemática.De maneira bem simplificada, o argumento pode ser apresentado assim. Primeiro, a matemática está de tal modo relacionada a nossas teorias científicas que poderíamos dizer que ela é indispensável para elas; em outras palavras, não haveria como eliminar objetos matemáticos de teorias científicas *e*, ainda assim, possuir boas teorias (isto é, teorias com sucesso empírico etc.).Segundo, assumindo uma postura naturalista, parece plausível defender que devemos apenas admitir a existência de objetos indispensáveis a boas teorias científicas. Mais: como teorias são testadas em bloco, a mesma evidência que confirma a parte empírica de uma teoria também confirma sua parte matemática. Mas, se é assim, então devemos admitir a existência de objetos matemáticos! Esquematicamente, temos duas premissas e uma conclusão:
(P1) a matemática é indispensável às melhores teorias científicas;
(P2) devemos admitir a existência de todos os objetos que sejam indispensáveis às melhores teorias científicas.
Conclusão: devemos admitir a existência de objetos matemáticos.
O argumento é válido, isto é, necessariamente, se as premissas são verdadeiras, a conclusão também o é. Pra criticá-lo, resta então analisar se cada premissa é de fato verdadeira. E agora, José?

Muito mais sério:
Gisele Dalva Secco – Computadores na prática matemática: um exercício de microhistória (O que nos faz pensar, 2016)
Mark Colyvan – The Indispensability of Mathematics (OUP, 2001)
Otavio Bueno – Nominalismo na filosofia da matemática (Crítica, 2016)
Stewart Shapiro – Filosofia da matemática (Almedina, 2015)

Mercadores da dúvida

Publicado em 17 de maio de 2020

Quais são as ações mais recorrentes de negacionistas científicos? Tirinha sobre uma das principais referências sobre essa questão: o livro “Merchants of Doubt” [Mercadores da dúvida], escrito pelos historiadores da ciência Naomi Oreskes e Erik Conway, e fruto de anos de pesquisa em documentos tornados públicos no fim da década de 90. Fique em casa e, por favor, se não lhe é indiferente o conteúdo deste post, siga divulgadores científicos: 

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Muito mais sério: 🤨
🔸Karen Kovaka – Climate change denial and beliefs about science (Synthese, 2019) 
🔸José Leite – Cotrovérsias científicas ou negação da ciência? (Scientiae Studia, 2014) 
🔸Naomi Oreskes – Why trust science? (Princeton, 2019) 
🔸Naomi de novo e Erik Conway – Merchants of doubt (Bloomsbury, 2010)
🔸Sven Hansson – Science denial as a form of pseudoscience (Studies in History and Philosophy of Science, 2017)  
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Referências das manchetes: 📰https://bityli.com/DzKx9https://bityli.com/csazF e https://bityli.com/W48OK
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Site do livro: 📕https://www.merchantsofdoubt.org/home/key-documents

Ciência e valores

Publicado em 06 de abril de 2020

A pandemia pela qual estamos passando tem suscitado questões diversas. Gostaria de mencionar, hoje, apenas aquelas que são investigadas por um ramo da filosofia da ciência chamado “ciência e valores”. Talvez vocês tenham visto governos que, se antes flertavam com conspirações anti-vacina, agora exigirem, de qualquer maneira e o mais rápido possível (além de com aqueeeela incoerência), uma vacina para o novo vírus. Ações como essa tem recebido forte reação da comunidade científica dos países envolvidos, uma vez que elas atropelariam todo o custoso processo de elaborar algo do gênero e suas medidas de segurança. Apenas tendo em mente esse cenário, várias questões espinhosas aparecem: em que condições intervenções governamentais no modo de agir da comunidade científica são legítimas? quais linhas de pesquisa e áreas científicas devem ser priorizadas em uma determinada sociedade, se for o caso de que algumas devam? quais as responsabilidades dos cientistas na elaboração, realização e comunicação de experimentos? como subsidiar políticas públicas em situações urgentes quando ainda não há evidência minimamente conclusiva sobre elementos importantes? o objetivo das ciências deve ser apenas o entendimento de fenômenos ou também o bem-estar da sociedade? Se for ambos objetivos, como organizá-los de modo a evitar que proposições sejam o caso simplesmente por que se quer que sejam? Caso você tenha se interessado por essas questões, listei abaixo algumas referências (autoria e título) sobre elas. A maioria está em português e é de fácil localização na internet. Aproveitem

Muito mais sério:

Brena Paula Magno Fernandes – Entrevista com Hugh Lacey
Débora Aymoré – Objetividade forte como alternativa à ciência livre de valores
Débora Aymoré, Kelly Koide e Mariana Toledo Ferreira – Ativismo, feminismo e filosofia da ciência: Entrevista com Helen Longino 
José Correa Leite – Controvérsias científicas ou negação da ciência? A agnotologia e a ciência do clima.
Kelly Koide, Mariana Toledo Ferreira, Marison Marini – Arqueologia e a crítica feminista: Entrevista com Alison Wylie.
Kevin Elliot – A Tapestry of Values: An Introduction to Values in Science
Marcos Barbosa de Oliveira – Formas de autonomia da ciência
Pablo Mariconda e Hugh Lacey – A águia e os estorninhos: Galileu e a autonomia da ciência
Philip Kitcher – Science in a Democratic Society
Revista Questão de Ciência – Em tempos de crise, vigilância contra má ciência deve ser redobrada
Stephen John – Inductive risk and the contexts of communication

A maçã de Newton e outras lendas

Publicado em 11 de novembro de 2019

Uma maçã cai na cabeça de Issac Newton (1643-1727) e, não mais que de repente, tem-se criada a teoria da gravitação universal. Essa lenda da história da ciência foi mencionada em uma questão do ENEM de 2019. O texto com a lenda, porém, não foi escrito pela fonte dada pela prova: trata-se de uma citação feita pelo Professor Roberto de Andrade Martins de um curso chamado “The English Enlightenment”. O Professor Roberto não endossa, portanto, a lenda mencionada pela citação, como a questão faz parecer. Na verdade, ele a critica em diversas frentes em seu texto. Vejamos. Relatos de amigos próximos a Newton indicam que, muito provavelmente, houve o caso maçã no seguinte sentido: ele, meditando em seu jardim, viu uma maçã caindo e conjecturou se a gravidade não existiria também a grandes distâncias, além de perto da Terra. Essa descrição já mostra um falseamento da história que a lenda promove: pensar que Newton somente conjecturou a ideia de gravidade com o caso da maçã. Ora, não há como pensar que o âmbito da gravidade é maior ou menor se já não se tem uma alguma ideia de seu domínio. Ademais, conjecturar um âmbito maior da noção de gravidade ainda não constitui a teoria da gravitação de Newton (“todos os corpos se atraem com forças proporcionais às suas massas e inversamente proporcionais às distâncias”). A lenda confunde, portanto, essa teoria com uma simples explicação da queda de uma maçã pela gravidade – coisas bem distintas. Daí, também outro falseamento produzido: a ideia de que descobertas científicas ocorrem em um piscar de olhos. Conforme o próprio texto do Prof. Roberto mostra, Newton demorou anos para chegar à teoria da gravitação, tendo antes refeito cálculos, estudado outros autores (e.g., Descartes, Huygens, Galileu) etc.. Esses são os efeitos danosos de uma narrativa que, à primeira vista, parece inócua. Um outro caso seria o tal do suposto encontro entre D. Pedro II e Nietzsche ou mesmo aquele da filha mecânica (!) de Descartes. As consequências dessas últimas lendas você encontra nas referências abaixo.

Muito mais sério:

MARTINS, Roberto de Andrade. A maçã de Newton: história, lendas e tolices. In: SILVA, Cibelle Celestino(ed.). Estudos de história e filosofia das ciências: subsídios para aplicação no ensino. São Paulo: Livraria da Física, 2006. Disponível em: <https://www.academia.edu/…/A_maçã_de_Newton_história…>
Nietzsche e D. Pedro II: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext…
A filha autômata de Descartes: https://doi.org/10.1017/S147924431600024X