Mercadores da dúvida

Publicado em 17 de maio de 2020

Quais são as ações mais recorrentes de negacionistas científicos? Tirinha sobre uma das principais referências sobre essa questão: o livro “Merchants of Doubt” [Mercadores da dúvida], escrito pelos historiadores da ciência Naomi Oreskes e Erik Conway, e fruto de anos de pesquisa em documentos tornados públicos no fim da década de 90. Fique em casa e, por favor, se não lhe é indiferente o conteúdo deste post, siga divulgadores científicos: 

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Muito mais sério: 🤨
🔸Karen Kovaka – Climate change denial and beliefs about science (Synthese, 2019) 
🔸José Leite – Cotrovérsias científicas ou negação da ciência? (Scientiae Studia, 2014) 
🔸Naomi Oreskes – Why trust science? (Princeton, 2019) 
🔸Naomi de novo e Erik Conway – Merchants of doubt (Bloomsbury, 2010)
🔸Sven Hansson – Science denial as a form of pseudoscience (Studies in History and Philosophy of Science, 2017)  
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Referências das manchetes: 📰https://bityli.com/DzKx9https://bityli.com/csazF e https://bityli.com/W48OK
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Site do livro: 📕https://www.merchantsofdoubt.org/home/key-documents

Aquecimento global: fontes do consenso

Publicado em 04 de novembro de 2019

Em uma pesquisa de opinião pública sobre aquecimento global publicada em julho deste ano, o Instituto Datafolha revelou que 15% dos 2086 entrevistados acreditavam na tese segundo a qual a Terra não está ficando mais quente, ao passo que os 85% restantes pensavam que ela está. Dentro da parcela que concordava com o aquecimento global, 72% criam que as atividades humanas contribuem muito para o aquecimento, enquanto que 18% pensavam que elas contribuem pouco e, finalmente, 10% acreditavam que tal contribuição não existe. Somando os 10% de 85% (8,5%) que acreditavam no aquecimento global, mas não na contribuição humana para ele, com os 15% dos entrevistados que não concordavam que a Terra está se aquecendo, temos 23,5% dos entrevistados na contramão do consenso científico sobre essa temática. De onde vem tal consenso?Em uma revisão bibliográfica de 928 artigos científicos sobre mudanças climáticas publicados em periódicos de 1993 a 2003 (referências abaixo, leitores ansiosos), Naomi Oreskes não encontrou sequer um contrário à tese de que o aquecimento global é devido a atividades humanas. Em um levantamento mais recente, que analisou 11.944 artigos publicados de 1991 a 2011, descobriu-se que 97,1% endossavam a tese do aquecimento global antropogênico (isto é, causado pelo ser humano). Curiosamente, uma pesquisa que tentava reproduzir os resultados dos 2% restantes encontrou diversas falhas metodológicas. Esses resultados interessam à filosofia de diversas formas; em particular, alguns filósofos têm se dedicado a entender melhor o que caracteriza esse consenso qualificado em torno do aquecimento global antropogênico e as razões para ele ser confiável. Sobre isso, a gente conversa outro dia. Por enquanto, dados para embasar e fomentar a discussão.

Muito mais sério:
Artigo Oreskes (“The Scientific Consensus on Climate Change”): https://science.sciencemag.org/content/306/5702/1686/tab-pdf
Artigo levantamento 2013 (“Quantifying the consensus on anthropogenic global warming in the scientific literature”): https://iopscience.iop.org/…/1748-9326/8/2/024024/pdf 
Artigo dos 2% (“Learning from mistakes in climate research”): https://link.springer.com/…/10.1007/s00704-015-1597-5… 
Artigo sobre epistemologia social e IPCC: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/japp.12178 
Matéria Datafolha: http://datafolha.folha.uol.com.br/…/1988289-para-85-dos…

Love Truth Again!

Publicado em 28 de outubro de 2019

Quando o historiador israelense Yuval Noah Harari (autor do best-seller “Sapiens”) disse que a filosofia poderia ser a profissão do futuro, filósofos começaram a ansiar pelo porvir como nunca antes. Para ele, a intensificação da inteligência artificial demandaria mais filósofos para auxiliar na programação de máquinas que lidem com dilemas morais. O autor, porém, faz um alerta: será possível, pela primeira vez na história, processar filósofos pelos resultados de suas teorias. É esse realmente o caso? Mais precisamente, ideias filosóficas têm sido até hoje inócuas? Vivendo em “circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais” (a célebre definição de pós-verdade dada pela Oxford Dictionaries), parece que, se há algum fator filosófico que colaborou com essa situação, então não, não é o caso que ideias filosóficas tenham sido inócuas. Em um livro sobre a temática da pós-verdade publicado em 2018, o filósofo da ciência Lee McIntyre (Boston University) analisa cinco fatores que contribuíram para a pós-verdade: negacionismo científico (veja nosso post “Mercadores da dúvida”), vieses cognitivos, derrocada da mídia tradicional, surgimento de mídias alternativas e… pós-modernismo. McIntyre define pós-modernismo a partir de duas teses: não há verdade objetiva e qualquer declaração de verdade é meramente reflexo da agenda política de seu enunciador. Embora alguns autores defendam que a corrente pós-moderna teve um impacto apenas dentro das universidades (não vemos o Ricardo Salles citando Derrida para negar mudanças climáticas, por exemplo), McIntyre mostra que isso é falso: o fundador do movimento contrário ao ensino da teoria evolutiva nas escolas estadunidenses cita explicitamente autores e teses pós-modernas para sustentar suas propostas; e Mike Cernovich, um dos grandes blogueiros apoiadores de Trump (517 mil seguidores no Twitter), fez o mesmo ao defender suas teorias conspiratórias durante as eleições de 2016 nos EUA. Para finalizar, uma citação do próprio McIntyre: “Esse é o custo de brincar com ideias como se elas não tivessem consequências. É bem divertido atacar a verdade na academia, mas o que acontece quando as táticas vazam para as mãos de negadores da ciência e de teóricos da conspiração, ou políticos que insistem serem seus instintos melhores do que qualquer evidência?”. Atenção ao vão entre o trem e a plataforma, filósofos. 

Muito mais sério:
Bruno Latour pedindo desculpas: http://www.bruno-latour.fr/…/89-CRITICAL-INQUIRY-GB.pdf 
McIntyre, Lee. Post-truth. Cambridge: MIT Press, 2018.
Matéria Harari: https://economia.uol.com.br/…/filosofia-pode-ser… 
Robert Pennock. The Postmodern Sin of Intelligent Design Creationism. Science & Education 19.6-8 (2010): 757-78

Mercadores da dúvida

Publicado em 25 de setembro de 2019

Ainda sem tradução para o português, o livro “Mercadores da dúvida” dos historiadores da ciência Naomi Oreskes (Harvard) e Erik Conway (Caltech) em muito auxilia a entender as campanhas difamatórias contra a ciência e os cientistas. Resultado de cinco anos de pesquisa em arquivos quase que integralmente disponibilizados na internet, os autores mostram as estratégias promovidas por parte da indústria, da mídia e de alguns cientistas para negar, mitigar ou dissolver o consenso científico em torno de resultados danosos à indústria, como a relação de causalidade entre tabaco e câncer de pulmão ou a contribuição das indústrias de combustíveis fósseis para as mudanças climáticas. “A dúvida é nosso produto” como diria um executivo em 1969. Para fomentá-la, o apelo à ideia de que a mídia deveria mostrar os dois lados de cada assunto – entre outras coisas. Mostrar os dois lados de cada assunto não deveria ser, como dizem os autores, dar igual peso a ambos, senão evidenciar precisamente qual lado tem mais peso. Pois bem, no caso das mudanças climáticas, centenas de programas de TV ainda mostravam o assunto como não consensual entre cientistas nos anos 2000. Em uma análise de 928 artigos científicos publicados em periódicos sobre o tema entre 1992 e 2002, Oreskes trouxe um resultado espantoso: nenhum deles discordava de que o aquecimento global é devido ao aumento de gases do efeito estufa. Ainda assim, cientistas apoiados financeiramente por grandes corporações (e sem especialidade em climatologia) negavam tais resultados em jornais de grande circulação. Cientistas do clima procuravam respondê-los. Quando publicadas, suas cartas de resposta eram drasticamente editadas. Quando não eram publicadas, eles as enviavam para periódicos científicos cuja circulação jamais atingiria o mesmo público de um grande jornal. Por que tudo isso? Para os autores, porque o cerne da questão é, na verdade, regulação e não ciência. Não à toa, negacionistas alegam a possibilidade do fim da liberdade individual ou o advento de uma ditadura ao se abordar tais questões. Por que não, afinal de contas, discutir regulação diretamente?

Muito mais sério:
BIDDLE, J., [et al.]. Epistemic Corruption and Manufactured Doubt: The Case of Climate Science. Public Affairs Quarterly, vol., 31, n. 3, p. 165-187, 2017.
Páginas do Professor Alexandre Araújo Costa (UECE): Instagram: @alexandre_araujoc; Twitter: @alexaraujoc; Facebook: https://www.facebook.com/OQueVoceFariaSeSoubesse/; Blog: http://oquevocefariasesoubesse.blogspot.com; Canal: https://www.youtube.com/channel/UCxgRxPTCZqeB6Rx_VKvVN6A .
LEITE, J. C.. Controvérsias científicas ou negação da ciência? A agnotologia e a ciência do clima. Scientiae Studia (USP), v. 12, p. 179-189, 2014.
ORESKES, N.; CONWAY, E. M.. Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming. Nova York: Bloomsbury Press, 2010.
Site do livro: https://www.merchantsofdoubt.org/home/key-documents/